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sexta-feira, 18 de março de 2016

Polarização e crise institucional - 15 meses depois

::: Escrevi esse texto em 21/10/2014 no Facebook, logo antes do segundo turno, preocupado com a estabilidade institucional. Agora temos um governo e uma economia em frangalhos, elementos do Judiciário claramente ativistas, um ambiente que parece os anos 50-60 - ou seja, uma crise institucional. Se eu fosse mudar o texto, eu talvez revisasse o uso do conceito de "desenvolvimentismo" (já que foi uma distorção tosca e ainda mais deletéria dele) e lamentasse mais a escolha trágica (eu "marinei" no primeiro turno, o que também não era uma grande opção). Por outro lado, crises mudam coisas: pode ser para o bem ou para o mal. Tenho personalidade pessimista e avessa ao risco, mas oremos. :::

Votei na Dilma em 2010 porque reconhecia no Brasil de até então a melhor experiência de inclusão social e diminuição da desigualdade na América Latina - com manutenção de instituições democráticas e estabilidade macroeconômica durante a gestão Lula.
O país melhorou, mas o governo Dilma mudou o modelo definitivamente. O Desenvolvimentismo é conservador, autoritário e pouco humano (a ditadura militar também gostava dela) - muito pior do que o tripé macroeconômico de FHC e Lula. Esse meio-desenvolvimentismo, tentando se adaptar a uma democracia e fingindo que valoriza estabilidade macroeconômica é talvez o pior de todos, porque ninguém sabe o que vai acontecer amanhã: nem crescimento alto gera (o único benefício que políticas desenvolvimentistas poderiam trazer, ainda que com custos humanos altíssimos). Uma política macroeconômica mal conduzida, por seu insucesso e pelos conflitos excessivos que geram, compromete as conquistas sociais, a estabilidade política e pode se tornar uma ameaça às instituições democráticas.
O Aécio é mais conservador em diversos aspectos, eu sei. Muitas pessoas, com valores bem próximos aos meus, têm a mesma posição crítica que eu em relação às duas candidaturas, mas votarão na Dilma porque veem no Aécio coisa ainda pior. Fiquei indeciso por um tempo e entendo perfeitamente quem faz a opção pela continuidade. Mas diante do intenso maniqueísmo, ainda mais estimulado pela campanha da incumbente, e do risco que isso representa à nossa jovem democracia, optei em não votar na Dilma. Em geral, retrocessos institucionais são precedidos por polarização - e no Brasil não tivemos poucos episódios do tipo. Isso talvez desagrade quem tem valores parecidos com os meus, mas é preciso ser fiel à sua consciência - e, por isso, espero respeito ao meu posicionamento.
Não sei quem vai vencer, mas que tanto vencedores quanto perdedores entendam que instituições democráticas são o nosso patrimônio mais importante, até para não colocar em risco os avanços sociais no longo prazo. Só assim teremos um país desenvolvido, livre e igualitário. Isso em um futuro ainda distante - até porque, quem quer que vença, teremos quatro anos difíceis pela frente.
PS: O antropólogo Luiz Eduardo Soares talvez tenha sido a pessoa que melhor captou minha percepção: http://www1.folha.uol.com.br/…/1533101-luiz-eduardo-soares-…
PPS: Eduardo Jorge, Eduardo Campos e Marina eram opções melhores.

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