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terça-feira, 31 de julho de 2012

Instituições e diferenças dentro dos estados

Se Naritomi et al. (2012) querem ver o efeito de diferentes atividades econômicas em todo o Brasil, por conta das diferentes estruturas institucionais criadas por tais atividades, má ideia não é verificar o que acontece dentro de estados brasileiros. O Rio Grande do Sul é um excelente caso. Em parte, quem tratou disso foram o Irineu e o Leo Monastério nesse paper aqui, já publicado online pela Regional Science and Urban Economics.

Resolvemos recentemente aqui na FEE e observar os dados de pobreza absoluta no RS. O Marcos Wink já publicou a respeito na Carta de Conjuntura da FEE em janeiro. Lá, na página 2, temos um bonito mapa mostrando onde estão os clusters de pobreza no estado: é o mapa aí em cima. Em algumas regiões, a incidência de pobreza é notória (quanto mais escuro, maior a incidência de pobreza). No norte do estado, por exemplo, temos vários pequenos municípios, destacando-se Redentora, com 23,45% de população em pobreza extrema. Por outro lado temos no sul do estado uma enorme área de municípios em que se destaca Canguçu, com 7,25% da população em pobreza extrema (mais de 3700 pobres!).

Mais estudos regionalizados podem ajudar-nos a decifrar o que houve nessas regiões. Há uma série de regiões no Brasil ainda não contempladas pela literatura. Será tudo sempre uma questão de "instituições, instituições, instituições", como insistem Acemoglu e Robinson?




sexta-feira, 27 de julho de 2012

Comentários sobre Naritomi et al. (2012)

Resolvi ler ontem a versão final do paper de Naritomi, Soares e Assunção (2012), finalmente publicada pela Journal of Economic History, depois de anos de versões anteriores circulando por aí. No final das contas, embora os resultados façam sentido, corroborem Engerman e Sokoloff, AJR e até Caio Prado Jr., não me dei por satisfeito. O paper trata de ver o efeito de atividades econômicas importantes sobre diversas variáveis como distribuição de terra, governança e provisão de bens públicos. Essas atividades teriam criado instituições extrativas que poderiam ter afetado negativamente os municípios ligados ou próximos aos centros dessas atividades.

Os resultados são intuitivos: regiões próximos ao açúcar em desvantagem no que se refere a desigualdade de terra, assim como alguns resultados negativos advindos da extração aurífera (em termos de acesso à justiça e governança). Ademais, as regiões antigas do café também tiveram alguma desvantagem. O novo no artigo é uma metodologia quantitativa, uma espécie de teste para a tese Engerman-Sokoloff. Mas meu problema foi outro. Em particular, o uso de uma variável "distância de Portugal" para captar o grau de controle da métropole sobre a localidade me pareceu um exagero. "Distância de Portugal" em termos práticos não é muito diferente de "distância do Equador". "Distância de Portugal" pode inclusive estar captando clima, latitude, etc. E se há mais variáveis geográficas, multicolinearidade poderia até ser um problema, apesar da amostra ter sido grande de fato.  

Acho que para o Brasil, ainda há muito a ser feito com relação a ideia de instituições e desenvolvimento de longo prazo. Esse paper é um bom passo, mas precisávamos de mais trabalhos nessa linha. Parabéns aos autores. É difícil ver brasileiros na Journal of Economic History. Acho que o último foi o Renato Colistete, isso lá em 2007



sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sobrevivendo ao congresso

Kruiskerk, local das palestras principais
Estive em silêncio durante minha estadia em Stellenbosch. Voltamos do XVI World Economic History Congress na cidade sul-africana próxima à Cape Town. O frio era muito semelhante ao de Porto Alegre, até porque exatamente como aqui, não havia calefação. A diferença é que as cidades do Western Cape são muito bonitas. Praias e montanhas fazem parte da paisagem da região, além das cidades serem bem mais organizadas que as brasileiras - pelo menos nas partes centrais.

Como esperado, recebi comentários interessantes em relação aos papers, tanto elogiosos quanto críticos. No primeiro dia, apresentei meu paper sobre educação no Brasil entre 1947 e 1962. Não mudei muito o que apresentei em relação à Tübingen em 2010. Talvez até por isso, o Peter Lindert (UC Davis) tenha feito uma forte crítica em relação a alguns detalhes econométricos: ele acha que a utilização de efeitos fixos nas minhas regressões está modificando os resultados que ele esperaria. Fiquei feliz por não ser o único: parece que o Lindert deu pancadas em todo mundo na outra seção sobre desigualdade. De qualquer maneira, não achei a crítica válida na hora porque acredito ter variabilidade suficiente na minha variável explicativa. Ao tomar cerveja com os demais colegas de sessão, confirmei o que pensava com os demais. Felizmente, Jeff Williamson (Harvard), que assistia a sessão, ficou quieto. Só comentou comigo no dia seguinte sobre o que Lindert dissera. Numa boa.

No último dia, apresentei o paper sobre Cuba (ou "o que teria acontecido com o PIB cubano se não tivesse havido Revolução"), que escrevi em coautoria com Felipe Garcia e Guilherme Stein. Eu podia ver nos rostos de alguns que ao menos a metodologia (controle sintético) que utilizamos lhes parecia divertida. Nos comentários, Alexander Moradi (U. Sussex) disse não acreditar muito na metodologia e que precisava saber o que essa metodologia adicionava, mas a famosa Deirdre McCloskey gostou do paper - principalmente por explicitar um contrafactual. Foi o que ela comentou pessoalmente comigo. De qualquer forma, foi uma experiência interessante.

Thomas, Felipe, Alexandre e Svante (nosso sueco brasileiro)


 A experiência de congressos acadêmicos como esse é importante. É muito comum vermos os alunos muito nervosos quando desafiados em suas bancas de artigo, TCC, dissertação ou mesmo tese. Mas é para isso que servem congressos e bancas. Comentários e críticas é o que precisamos, por mais que precisemos de outros incentivos (talvez praias, lugares aprazíveis, etc) para ir a congressos. Com meus colegas Fábio Pesavento, Felipe Loureiro e Alexandre Saes (os três aí embaixo), parece que tudo deu certo também.Também devemos reconhecer a participação de nosso amigo Svante Prado, sueco casado com uma brasileira que estava sempre conosco nas cervejas e vinhos.

Fábio, Felipe e Alexandre - delegação brasileira no aeroporto de Johannesburg






terça-feira, 17 de julho de 2012

XVI World Economic History Congress

Primeiras notícias de Stellenbosch. Escrevi esse pequeno post quando estava na África do Sul, mas por algum motivo, o blogger.com não queria publicar.

Stellenbosch University

  • Confusa a primeira palestra de James Robinson sobre África. A palestra foi proferida na Kruiskerk (uma igreja), a exemplo do que ocorrera na edição passada do WEHC em Utrecht. Acemoglu também palestrou em uma igreja. Como estávamos na África, a ideia foi discutir os motivos do atraso econômico na África. Evidentemente, Robinson falou o tempo todo em instituições.
  • Stellenbosch é uma cidade muito simpática, onde é nítida a forte influência holandesa. O Afrikaans é uma língua bastante interessante e incompreensível.
  • Eles têm uma boa cerveja, a tal de Black Label. Superior às que temos no mercado industrial.
Black Label
  • Comentário interessante de Steven Broadberry sobre o Why Nations Fail, criticando-o evidentemente...
  • Palestra de Deirdre McCloskey sobre o papel da ideologia na Revolução Industrial. Pra ela, essa história de instituições formais (North and Weingast), carvão (Allen) e outros não está com nada. Continua com o humor de sempre.
McCloskey falando sobre a Revolução Industrial e o papel das ideias


  • Gareth Austin, no seu debate com James Robinson, ressaltou que, além das instituições, características geográficas atuaram como condicionantes. Eu não conhecia o seu trabalho, mas tive uma ótima impressão da palestra.
Debate sobre África: James Robinson (Harvard) e Gareth Austin (Geneva)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Sobre o regime cubano

Outro paper que apresentarei no XVI WEHC será o controle sintético que aplicamos para Cuba. Antes que opiniões surjam por aí sobre as conclusões de nosso paper, vou colocar aqui meu posicionamento pessoal acerca da situação em Cuba. Meus coautores não tem qualquer relação com as minhas opiniões.

1. Segundo nossas estimativas, se Cuba não tivesse adotado o regime comunista, acabando com instituições de mercado, Cuba teria, ao longo do período 1959-1974 um nível de PIB maior do que o apresentado de fato - embora possivelmente fosse sofrer mais com a crise internacional se sua economia estivesse aberta. É apenas isso que o controle sintético encontra e nada mais, sem extrapolações políticas adicionais. De qualquer maneira, a fase que é considerada por alguns (Brundenius, 2009) como bem-sucedida (os primeiros 25 anos de Revolução), não teria sido tão boa assim de acordo com o que encontramos. Nossa conclusão não difere de Ward e Devereux (2011). Para explicar isso, utilizamos argumentos qualitativos de que o problema foi institucional e relacionado ao fim dos mecanismos de mercado.

2. O argumento refere-se somente a PIB. Em nenhum momento, essa relação pode ser estendida para outras variáveis relacionadas a educação e saúde, por exemplo. Na minha opinião pessoal, as políticas cubanas de educação parecem ter sido positivas, embora possa se questionar o conteúdo ideológico, etc. Não podemos, no entanto, esquecer que os dados cubanos já eram muito bons em termos de indicadores sociais antes da Revolução - mas as melhorias continuaram após a Revolução. Isso é extensivamente documentado pela literatura (ver McGuire and Frankel, 2005, por exemplo).

3. Aparentemente, houve redução das disparidades sociais em Cuba com a Revolução, embora possa se dizer que todos permaneceram pobres. No entanto, essa alocação de recursos atual pode ser positiva para uma posterior abertura cubana, uma vez que a dotação inicial afeta bastante os resultados finais com a entrada do mercado. É só não termos um processo de privatização como o russo, que criou uma máfia.

4. Eu visitei pessoalmente Cuba devido à uma reunião do Conselho Mundial de Igrejas e vi que havia pobreza. Mas também entendi o sentimento nacionalista de um país que sempre sofrera interferência da invasiva política externa norte-americana, fato que também é extensivamente documentado (Pérez-Lopez, Mesa-Lago, etc.). Nada justifica a adoção de uma ditadura, seja ela de direita ou de esquerda, em qualquer país. Também entendi que a boa educação e saúde é algo que eles de fato valorizam e, embora sem certas liberdades políticas, acredito que muito brasileiro em pobreza extrema no sertão nordestino, poderia preferir nascer em Cuba. Em nenhum momento estou defendendo o regime cubano, que é injustificável - assim como o de qualquer outra ditadura. Mas nós no Brasil somos piores em várias dimensões e isso deveria contar se nossa visão de sociedade não é unidimensional ou lexicográfica (com prioridade absoluta para liberdades políticas).

5. Como Cuba, tão perto dos Estados Unidos, pode se beneficiar disso no futuro sem que se torne uma espécie de colônia norte-americana? Não é simples anti-americanismo. Mas talvez essa seja a pergunta mais problemática para alguns cubanos. Não é simples nacionalismo, mas o direito à autodeterminação. Não acho que o preço a ser pago sejam as liberdades políticas individuais (que também são problemas em ditaduras de direita). Mas essa é uma questão - que eu discutiria com prazer, pois é um assunto difícil. Do ponto de vista puramente econômico, ser uma economia satélite dos EUA seria talvez a melhor coisa. Mas nem sempre é só isso que importa. O que importa? Só perguntando para o povo, que hoje não tem muita condição de responder. Porto Rico ao menos faz plebiscito e escolhe continuar sendo Estado associado norte-americano. Novamente, temos uma discussão de valores.

6. Dentre os países comunistas, talvez Cuba tenha o governo mais brando. Não falo isso como algo positivo. Mas temos que diferenciar Cuba da Coreia do Norte ou de outros regimes tão nefastos quanto do outro lado do espectro. Arábia Saudita, por exemplo.

7. Obviamente, o problema principal de Cuba não é doença holandesa. 

Novamente reitero que todos os posicionamentos aqui escritos são absolutamente pessoais. Meus coautores e outros não tem nada a ver com isso.