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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Rawls e religião


Passeando pela rede, deparei-me com escritos sobre a relação entre o filósofo John Rawls e a religião. Um excelente artigo sobre o tema, de autoria de dois filósofos muito conhecidos, Joshua Cohen e Thomas Nagel, mostra que algumas das concepções de Rawls são originadas de seu passado religioso. Segundo o artigo:


he [Rawls] “became deeply concerned with theology and its doctrines”, and considered attending a seminary to study for the Episcopal priesthood. But he decided to enlist in the army instead, “as so many of my friends and classmates were doing”. By June of 1945, he had abandoned his orthodox Christian beliefs.



Muito do que Rawls pensou posteriormente tem ligação com seus pensamentos cristãos na juventude. A sua rejeição do mérito como requisito de justiça tem certamente origem na idéia de graça, tão defendida por Paulo, Agostinho e Lutero. É provável que daí também se origine o igualitarismo de Rawls:



“There is no merit before God. Nor should there be merit before Him. True community does not count the merits of its members. Merit is a concept rooted in sin, and well disposed of”. This claim is theological, associated with an interpretation of divine grace.



Um outro ponto é sua rejeição a concepções de justiça baseadas puramente nos fins, ignorando os meios para se chegar nesses fins desejados. Perfeccionismo e utilitarismo, bastante criticados no seu famoso A Theory of Justice (1971), são exemplos de consequencialismo extremo do tipo. Isso teria relação com a concepção religiosa de Rawls, em que o relacionamento com Deus na religião (sujeito) é essencial, ao invés de uma concepção que torna Deus um objeto.



[Rawls'] thesis criticizes the infection of Christianity, through Augustine and Aquinas, by the ethical conceptions of Plato and Aristotle, according to which ethics is concerned not with interpersonal relations but with the pursuit of the good by each individual separately. In its hellenized form, Christianity treats God as the supreme object of desire. Rawls objects that this misses “the spiritual and personal element which forms the deep inner core of the universe”.



Foi para mim uma descoberta bem interessante. Embora Rawls tenha abandonado a ortodoxia cristã após a II Guerra, é curioso que eu poderia concordar hoje com o pensamento do jovem Rawls. De qualquer forma, vale a pena ler o artigo.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Feliz Natal e Ano Novo

Antes tarde do que nunca. Deixo aos leitores do blog um Feliz Natal e Ano Novo.
Já adianto também a epígrafe da minha dissertação, que se Deus quiser, será entregue na primeira semana de fevereiro. O título provável é "Instituições, Voz Política (ou Poder Político) e Atraso Educacional no Brasil, 1930 - 1964". Aí vai:

"Em minha opinião, nenhum pecado exterior

pesa tanto sobre o mundo perante Deus [...]

do que justamente o pecado que cometemos

contra as crianças, quando não as educamos”

Martin Luther, 1524

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Mais sobre Samuelson


Ainda estou falando de Samuelson, falecido semana passada. Acho que ele merece mais menções. Em termos teóricos, é o economista mais importante do século XX na minha opinião. Mais do que Keynes ou Friedman, que certamente foram os mais influentes. Esses dois motivaram quase toda a pesquisa que veio depois deles, mas certamente Samuelson foi o que mais contribuiu diretamente para o avanço da teoria econômica (Ricardo Leal novamente recebe os créditos por discutir isso comigo).


Aqui, mais um artigo do Paul Krugman no Voxeu.com sobre as contribuições de Samuelson, chamando atenção para oito contribuições fundamentais do economista. Novamente, Krugman escreve algo mais no final sobre intervenção do governo, como sempre. Mas mesmo os mais conservadores deveriam ler e entender o que significou Samuelson para a teoria.

Quem estudou economia deve-se lembrar de coisas como modelo Stolper-Samuelson, bens públicos, preferência revelada, função de bem-estar Bergson-Samuelson, entre outros. Alguns podem ter ouvido falar dos debates entre ele e Friedman, assim como a controvérsia do capital (ou controvérsia de Cambridge).


Para quem quer saber mais, o MIT disponibilizou uma série de links sobre Samuelson.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Falecimento de Samuelson


Meu amigo Ricardo Leal acaba de me informar do falecimento de Paul Samuelson.


Se pudéssemos falar de duas pessoas responsáveis pelo que a ciência econômica é hoje, elas seriam Paul Samuelson e Kenneth Arrow (que ainda está vivo).


No obituário do NY Times, temos uma reportagem sobre ele. No site do Prêmio Nobel, podemos encontrar muita coisa sobre Samuelson clicando aqui. Ainda não apareceu nada no site do departamento de Economia do MIT, onde Samuelson lecionou por muito tempo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Gestação

Minha filha, a dissertação, em gestação há quase 3 anos, tem agora 117 páginas. Não devem ser incluídos aí conclusão e bibliografia, além de faltar boa parte da análise econométrica.

Outras crianças já nasceram da geração de 2007 do mestrado no IPE-USP. Os temas variam entre macroeconomia de curto prazo (do nosso amigo Acauã), passando por economia ecológica (Jesus, não o Cristo), chegando até a matematização na ciência econômica (do nosso amigo Maraca). Também temos os contadores de crianças na escola (brincadeira, trabalho do Pisca), contratos (Eric) e infra-estrutura no Brasil (Tiagão). Não sei bem como ficaram os trabalhos de Bruno (Macro) e Penin (certamente tem algum Schumpeter no meio). [Se cometi algum deslize, me avisem, colegas].

Em gestação, temos pelo menos as crianças de Thomas [eu] (história econômica da educação), Ana (economia regional), Raphael (macroeconomia com toques keynesianos) e Leandro (vendido ao mercado financeiro, hehe). Nossa gestação teve que ser estendida. Pedidos de prorrogação de prazo são muito importantes pra alguns, dependendo das vicissitudes da vida de um mestrando.

Na segunda, vou pra São Paulo pedir mais 30 dias de prazo para que eu possa entregar a dissertação em fevereiro. Janeiro será um mês excelente na quente Porto Alegre, enquanto as garotas gaúchas estarão na plataforma de Atlântida ou nas praias catarinenses.

Mas a criança virá. Entre tubos e aparelhos talvez. Acho que sobreviverá.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Marginalismo e laissez-faire

Backhouse deixa claro que a conexão que costumamos fazer entre marginalismo e laissez-faire não faz sentido. Nada como um pesquisador sério de HPE para nos explicar:

"although Jevons started his career a supporter of laissez-faire, by his last book [...] he had arrived at a position where he [...] found more and more contexts where state intervention was justified [...]: public health, working conditions, education, transport, and many others. Marshall, the dominant economist of the following generation, saw a smaller role for state intervention than did Jevons. However, he still assigned a significative role to the state, going along with the wider movement towards support for progressive taxation [...]. Though his socialism was somwhat limited, Walras even described himself as a socialist. If there was a causal link between socialism and marginalism, therefore, it did not involve marginalism being adopted as a way of defending laissez-faire against socialist criticism. Marginalism was used to argue in favour of social reform" (p. 270).

Backhouse, Roger (2002). The Penguin History of Economics. Penguin: London.