Páginas

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Egoísmo

Como economistas, costumamos sempre considerar pessoas egoístas ou auto-interessadas. Embora não sejam termos necessariamente sinônimos, muitas vezes são.  O ponto é se as pessoas são sempre auto-interessadas em seu comportamento. Há espaço para outras motivações para além do auto-interesse?

Antes de talvez ler livros como "Sobre Ética e Economia" de Sen, tão citados nos posts anteriores e que tratam extensivamente do assunto, talvez seja interessante consultar a Stanford Encyclopedia of Philosophy. Há nesse site uma discussão sobre egoísmo, bastante elucidativa para a economia, tratando de conceitos que utilizamos. 


terça-feira, 28 de abril de 2009

Críticas que não entendo (1) - (cont.)

Em primeiro lugar, acho melhor esclarecer que, quando falo de equilíbrio, não estou especificamente falando do equilíbrio geral. Embora eu mesmo não veja o equilíbrio geral como algo nefasto à economia, até entendo que tenha gente que não goste. A prova da existência de equilíbrio geral (Arrow-Debreu) é bastante complexa e abstrata. Ainda, em um tópico que não estudei, apresenta problemas (Teorema Sonnenschein-Mantel-Debreu, MWG cap 17). Mas isso não significa que é inválido.

Falando de equilíbrio em sua forma mais simples, pensemos em um simples equilíbrio de mercado com a curva de oferta cruzando a de demanda, determinando preços e quantidades. Alguém ser contra isso é difícil entender. Uma coisa estimável, aplicada, com inúmeros estudos e altamente esclarecedora. Uma ferramenta simples e poderosa. 

Em segundo lugar, falaram que muita gente seria contra o equilíbrio geral, incluindo Amartya Sen. Vamos deixar claro que Sen não é um heterodoxo (quem ganha Nobel é ou tornou-se ortodoxia, pelo menos da época que ganhou). Ele foi presidente da Econometric Society, um cargo que qualquer um que se considera heterodoxo não gostaria de estar (aliás, não vejo produtividade alguma no debate ortodoxia vs. heterodoxia. Acho que devemos debater assuntos, mas não como se eu estivesse defendendo o Grêmio contra o Inter). No entanto, ele tem uma das críticas mais contundentes à economia do bem-estar especificamente. Por ser contundente e profundo é que ele tem o respeito de tanta gente. Vejamos o que ele diz sobre equilíbrio e ótimo de Pareto:

"Uma importante proposição [...] é o chamado 'Teorema Fundamental da Economia do Bem-Estar [...] Esse teorema mostra que, em determinadas condições (especialmente ausência de 'externalidades', isto é, de interdependências que sejam externas ao mercado), cada equilíbrio perfeitamente competitivo é um ótimo de Pareto e, com algumas outras condições (especialmente ausência de economias de escala), cada estado social Pareto-ótimo é também um equilíbrio perfeitamente competitivo em relação a algum conjunto de preços [...]".

Ótimo, ele explicou o teorema (ver também MWG, cap. 16). E Sen continua:

"Esse é um resultado notavelmente elegante, que permite discernir profundamente a natureza do funcionamento do mecanismo de preços, explicando a natureza mutuamente vantajosa da troca, produção e consumo regidos pelo auto-interesse. Um aspecto significativo das relações econômicas via mecanismo de mercado foi esclarecido por esse resultado e outros afins".

Posteriormente, ele ainda afirma (e sei que ele trata disso também em outras obras):

"A estrutura de raciocínio conseqüencial e a investigação de interdependências extensivamente desenvolvida em economia em muitos contextos (inclusive o da análise de equilíbrio geral, examinado no capítulo 2) facilita o discernimento quando investigamos os inescapáveis problemas de interdependência envolvidos na apreciação do valor dos direitos em uma sociedade".

A partir de Sen, não jogamos o equilíbrio fora (seja ele geral, parcial, enfim). Muito pelo contrário, são muito úteis. O ponto é que não é suficiente, principalmente para fins de avaliação de políticas e em relação a conteúdo ético, que Sen defende que deva existir quando falamos de desenvolvimento.



Trechos de Amartya Sen retirados de "Sobre Ética e Economia" (p. 50-51; 89)
MWG é referência a Mas-Collel, Whinston and Green (1995). "Microeconomic Theory".

sábado, 25 de abril de 2009

Críticas que não entendo (1) - Equilíbrio

Em minha graduação, ouvi diversas vezes sobre a tal falácia do equilíbrio. Para muitos professores que tive, o equilíbrio deveria ser banido da ciência econômica, tamanho eram os equívocos teóricos por eles causados. 

Mas o que é o equilíbrio senão a idéia de que, se as pessoas perceberem que elas podem melhorar de condição, elas não vai deixar de fazer isso? Uma situação de desequilíbrio ocorre quando ainda há espaço para melhoras. Evidentemente, nem sempre as pessoas têm informação completa e perfeita. Logo, elas deixam de melhorar quando poderiam pela existência dessa imperfeição. Ótimo, isso já foi incorporado pela teoria econômica.

Se eu perceber que posso aumentar o preço sem proporcional queda da demanda (ou seja, a demanda é inelástica), porque não o faria? Se o objetivo é a maximização do lucro, espera-se que as pessoas possam fazer isso. É evidente que podem haver restrições legais, institucionais, culturais e até mesmo éticas. Pode ser que a função objetivo da firma não seja a maximização do lucro no período em questão. Essas situações podem ser levadas em consideração, mas não tem nada a ver com a inadequabilidade do conceito de equilíbrio. Mudamos a função objetivo se for o caso e incorporamos as imperfeições. Equilíbrio continua um conceito útil, se quisermos de alguma forma determinar preços e quantidades em mercados, usar teoria dos jogos, etc.

Um dia falei para alguns professores da FEA sobre essas críticas ao equilíbrio que costumava ouvir na graduação. Vindos há pouco de doutorados difíceis nos EUA, eles olharam para mim e disseram: "nunca entendi essa crítica. Por que ninguém quer melhorar na cabeça deles?"

sábado, 18 de abril de 2009

Recentes papers de EH no NBER

Alguns artigos recentes lançados pelo NBER merecem leitura. Na verdade, vários deles, mas vou ater-me aos da área de história econômica.

Jeffrey Williamson, de Harvard, escreveu um paper com o seguinte curioso título: "History without Evidence: Latin American Inequality since 1491". Nosso pequeno grupo de estudos já o leu e o texto incomodou profundamente a maioria do grupo. De qualquer forma, Williamson é um cara importante. Aparentemente, ele não é um cara que se importa muito com instituições.

Nathan Nunn faz um artigo síntese sobre a importância da história no estudo do desenvolvimento. Pra quem não sabe, Nunn tem papers muito legais, inclusive um na QJE sobre África. Esse eu novo eu não li ainda, mas pretendo fazê-lo em breve:

É possível inscrever-se no site do NBER e receber periodicamente a lista de novos paper lançados no site com seu resumo. Principalmente para aqueles procurando novas referências, é uma fonte valiosíssima, uma vez que muitos papers que são posteriormente publicados em revistas, aparecem nesse site antes. Outros acabam nem sendo publicados, mas constituem importante referência.


quarta-feira, 15 de abril de 2009

Auto-promoção (de novo)

Bom, o Portal Luteranos, site oficial da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, resolveu fazer uma reportagem sobre minha participação em um grupo do Conselho Mundial de Igrejas que se reunirá em maio. Quem quiser dar uma lida, é só clicar aqui.


terça-feira, 7 de abril de 2009

Berkeley

Ex-colega meu de graduação da UFRGS e terminando o mestrado na PUC-Rio acaba de decidir que vai fazer seu Ph.D. na University of California at Berkeley (mais conhecido como UC Berkeley). Não divulgarei seu nome ainda (vai que ele muda de idéia), mas deixo-lhe os parabéns.

A surpresa fica por conta das suas matérias obrigatórias e do corpo de professores. Além de ter no departamento caras como Obstfeld, Bardhan, McFadden, David e Christina Romer, DeLong, Oliver Williamson, Akerlof e Rubinfeld, meu colega terá que fazer um curso obrigatório de história econômica no primeiro ano. Por exemplo, o curso ministrado por Barry Eichengreen

Isso é pra ver como a história econômica é considerada importante como disciplina de formação em um departamento top-5. Se não me engano, a UCLA tem o mesmo esquema. 

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Hiperinflação ainda existe


Em minha última viagem eclesiástica, conversei com um amigo do Zimbabwe. Masimba é cego, mas formado em ciências sociais - teve a sorte de ter condições para isso. Em meio a nossa conversa sobre a situação atual do Zimbabwe sob o comando do ditador Mugabe, fiquei surpreso com o problema inflacionário de lá. Confesso que não tenho lido muito os jornais internacionais. 

Como presente e prova de que hiperinflação ainda existe, ele me deu a seguinte cédula que me tornou trilionário em dólares do Zimbabwe.


Sim, 50 trilhões de dólares. Masimba estimou seu valor em US$ 0,25. Nem isso, na verdade, o povo já está usando a moeda sul-africana e o dólar americano. Fiquei feliz com o presente, embora reconheça tristemente o que significa tamanha inflação para um povo pobre como o do Zimbabwe. E ali está meu cartão de estudante, só pra provar que a cédula é minha, hehe.