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segunda-feira, 30 de março de 2009

Impressões sobre Cuba

Devido a uma reunião do Conselho Mundial de Igrejas, tive a oportunidade de visitar Cuba entre os dias 14 e 21 de março. É interessante eu dizer algumas coisas sobre o que vi da economia e sociedade cubana.

Pobreza

De fato, o cubano em geral é pobre. As ruas desertas de Matanzas, com pinturas se desfazendo e portas abertas, atestavam isso. Falando com três pessoas de um coro que se apresentou e que, portanto, não tinham nenhum compromisso em defender o regime, ficou claro que a pobreza é o que mais atrapalha. A opressão política existe, mas não se compara aos outros países que eram comunistas e não é o que mais incomoda: o problema é ser pobre. Em Havana também encontramos ruas complicadas.  A culpa dos problemas econômicos evidentemente é em parte do embargo. Mas também não se pode superestimá-lo. Não acredito que Cuba se tornaria uma Suécia com o fim do embargo, como muitos cubanos parecem querer dizer ao apontar o dedo na cara dos Estados Unidos. De qualquer forma, é claro que o embargo é algo nefasto e contraproducente. Esse embargo passou a ser um grande problema após o fim da URSS. Hoje, ele apenas incentiva o cultivo de sentimentos anti-americanos no país e, na minha opinião, posterga a abertura política de Cuba, ao proporcionar legitimidade ao regime.

Carros

Os carros, em sua maioria, são mais antigos que 1959, ano da revolução. Inteiramente conservados, andam ao lado de Ladas russos e de alguns carros modernos de turismo. Os mecânicos cubanos devem ser os melhores. Hoje em dia, segundo um rapaz com quem conversei, se um cubano vai trabalhar em um país estrangeiro, ele tem duas opções ao voltar: o governo permite-lhe comprar ou um carro ou uma casa. Se a primeira opção é escolhida, o governo importa o carro, cobra algum imposto e fica com um pouco dos dólares. Cuba precisa muito de divisas para poder importar produtos nos mercados internacionais. Assim, alguns têm carros novos para uso pessoal.

Desigualdade

Alguns fatores de desigualdade começam a aparecer em Cuba. Carros e casas foram os exemplos que dei acima. Porém, temos outras fontes. O turismo, importante gerador de divisas em Cuba, proporciona aos que trabalham nesse ramo algumas boas gorjetas em dólares. Por vezes, um médico muito bem formado em Cuba acaba ganhando muito menos que um garçom de um hotel em Varadero, famosa praia cubana. Aos poucos, a necessidade de divisas vai gerando desigualdades em Cuba e, provavelmente, o sistema não perdurará por um longo tempo devido às tensões sociais que começam a aparecer. A abertura, no entanto, provavelmente será lenta, gradual e segura, muito mais do que o estilo Geisel.

Educação e Saúde

Não vi as escolas, nem os hospitais. Mas disso os cubanos de fato não reclamam e é um dos grandes sustentáculos do regime cubano. O cubano sabe ler e não é uma pessoa tosca. Segundo meus amigos do coro, que estiveram na Venezuela e viram casas em favelas com antenas parabólicas, isso jamais ocorreria em Cuba. Como as pessoas são minimamente educadas, elas têm maior noção sobre o que é importante em uma casa. Ok, talvez lá não valha a pena ter antenas parabólicas, mas há uma diferença fundamental entre ser pobre sem educação e pobre com educação. Para eles, isso é uma conquista do socialismo e não se pode comparar isso com o regime anterior de Cuba. Mal sabem eles que os estados de bem-estar social na Europa fornecem saúde e educação ainda melhores. De qualquer forma, dado o que eles viveram, é compreensível que não vejam com bons olhos o capitalismo, mesmo com a supressão de muitas liberdades no atual regime.

Concluindo

Muitos cubanos passarão o dia reclamando para você do regime. Dirão que é muito fechado, que talvez devesse haver mais acesso a mercados. No dia seguinte, você estará triste e dirá que concorda com ele, afirmando que o socialismo é uma porcaria. Ele dirá que não, que ele próprio é socialista. Você confuso perguntará sobre as declarações do dia anterior. Ele dirá que quer melhorar o socialismo, não acabar com ele. No fundo, ele não sabe, mas quer um estado de bem-estar social aos moldes escandinavos. Cuba de fato não é o inferno, mas está muito longe do céu, como propalado por alguns. Não posso negar que talvez o socialismo tenha sido uma melhora em relação ao período pré-1959, mas não posso ser conivente com a opressão política. Não agüento representantes do governo falando dos ensinamentos do comandante-en-jefe


sexta-feira, 27 de março de 2009

Secularização Holandesa


Church authorities not to discipline Dutch 'atheist' pastor

Utrecht (ENI). Two regional church authorities in the Netherlands are reported to have decided to take no disciplinary action against a self-proclaimed atheist pastor, Klaas Hendrikse. The decision of the authorities in the southern Dutch province of Zeeland was published in a letter to their congregations, the Protestant daily newspaper the Nederlands Dagblad reported on 24 March. The church authorities said disciplinary proceedings against Hendrikse, who is a pastor of the Protestant Church in the Netherlands, would be likely to lead to, "a protracted discussion about the meanings of words that in the end will produce little clarity". The letter also noted that people have debated the issue of "God's existence" throughout time. [441 words, ENI-09-0252]

Os holandeses me surpreendem sempre. Bom, espero conhecer Utrecht em agosto, palco da secularização mais extremada e do World Economic History Congress.

domingo, 22 de março de 2009

Debates macroeconômicos

A pós-graduação em Economia da FEA-USP promoveu recentemente dois debates sobre temas macroeconômicos.

(1) Os professores Gilberto Tadeu Lima, Fábio Kanczuk, Mauro Rodrigues e Pedro Garcia Duarte debateram o estado atual da macroeconomia. Todos, de certa forma, afirmaram que está havendo uma certa convergência no mainstream da macroeconomia. A tradicional divisão entre novos-keynesianos e modelos Dynamic Stochastic General Equilibrium não é mais tão estanque. Enquanto os novos-keynesianos utilizavam hipóteses de rigidez de preços, o pessoal de DSGE tinha modelos mais estruturados. O fato é que hoje, praticamente todos os papers de macroeconomia têm utilizados modelos DSGE com a utilização de idéias novo-keynesianas, que passaram a ser modeláveis ao estilo DSGE. Como sempre, o Giba chamou atenção para os que estão um pouco fora dessa convergência. Foi um bom debate para ficar atualizado na macroeconomia contemporânea.

(2) André Lara-Resende, que participou da formulação do Plano Real, foi o convidado para os seminário acadêmico do dia 13. Basicamente, sua palestra foi sobre a atual crise, assunto sobre o qual ele já tinha, com maior profundidade, escrito em reportagem para o Valor. Foi uma explanação interessante da atual situação, um bom resumo. Em um momento, Lara-Resende criticou o atual estágio da macroeconomia contemporênea nas academias: para ele, essa convergência mencionada no parágrafo anterior, teria se tornado pouco interessante. Obviamente, ele foi um pouco pessimista, como são os economistas em geral. A recuperação parece estar distante.

Em próximos posts, devo mencionar o que vi e ouvi em Cuba na semana passada, país que visitei devido à uma reunião do Conselho Mundial de Igrejas.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Aborto e estupro: posicionamento oficial da IECLB

Clicando aqui, temos um resumo acerca do posicionamento da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil sobre o caso da menina que, estuprada pelo padrasto, teve seu filho abortado por decisão da mãe da menina. Declarações de clérigos católico-romanos pediram pela excomunhão dos médicos que fizeram a operação.

O texto completo do posicionamento (que tem apenas três páginas), pode ser encontrado aqui.

Tendo a concordar com o argumento geral de que a teologia luterana não pode desrespeitar "o critério de que a decisão deva ser tomada pelas pessoas implicadas, em responsabilidade própria".
Acredito que “Deus, em sua graça, permite, em situações extremas como essa, opções carregadas de mal – pois o aborto certamente não é um bem – e as acolhe como expressão de um servir responsável ao próximo em necessidade.”

quarta-feira, 11 de março de 2009

Smith e Keynes na visão de Sen

Novamente, como fã do pop-star Amartya Sen, farei propaganda de um escrito seu no New York Review of Books. Sen escreveu um pequeno artigo sobre a crise, o capitalismo e as idéias de Smith, passando por Keynes e por seu professor Pigou, tão mencionado negativamente na Teoria Geral. Vou copiar alguns trechos que merecem ser transcritos (agradeço a Ana Barufi por mandar o mapa da mina):


"For example, the pioneering works of Adam Smith in the eighteenth century showed the usefulness and dynamism of the market economy, and why—and particularly how—that dynamism worked [...]"

"[...]the huge limitations of relying entirely on the market economy and the profit motive were also clear enough even to Adam Smith. Indeed, early advocates of the use of markets, including Smith, did not take the pure market mechanism to be a freestanding performer of excellence, nor did they take the profit motive to be all that is needed."

"Smith's economic analysis went well beyond leaving everything to the invisible hand of the market mechanism. He was not only a defender of the role of the state in providing public services, such as education, and in poverty relief (along with demanding greater freedom for the indigents who received support than the Poor Laws of his day provided), he was also deeply concerned about the inequality and poverty that might survive in an otherwise successful market economy."

"While Keynes was very involved with the question of how to increase aggregate income, he was relatively less engaged in analyzing problems of unequal distribution of wealth and of social welfare. In contrast, Pigou not only wrote the classic study of welfare economics, but he also pioneered the measurement of economic inequality as a major indicator for economic assessment and policy."


Pensemos duas vezes antes de falar de Smith, Keynes e Pigou. Não que Sen seja a palavra final sobre esses tópicos, mas não ignoremos que de fato Smith era bem menos radical, neoliberal ou seja lá o que for do que se fala por aí e que Keynes talvez tenha sido bem mais conservador do que se diz por aí. Verdade seja dita: o famigerado Pigou foi um dos pioneiros na análise da desigualdade.

segunda-feira, 2 de março de 2009

História Econômica da Educação

A pesquisa em educação na história econômica tem recebido considerada atenção. Do momento em que escrevi meu projeto de dissertação (em setembro de 2007) até agora, surgiram importantes trabalhos na área. Além disso, descobri muitos trabalhos importantes, bem conhecidos na academia ao redor do mundo. Mas provavelmente seu professor de história econômica não vai saber. Talvez ele saiba bastante de Dobb, Braudel e talvez Geschrenkon, o que é louvável, mas atualização é bom.

Para o tema específico de gasto social e desenvolvimento, um livro foi fundamental para organizar melhor minha cabeça e me dar idéias a respeito do tema. Em 2004, Peter Lindert (University of California, Davis) lançou os dois volumes de "Growing Public: Social Spending Since the Eighteenth Century", publicação que recebeu vários prêmios. Além do tema da educação, em que ele chama atenção dos papéis da expansão do sufrágio (no caso norte-americano) e da descentralização (na Alemanha e nos Estados Unidos), Lindert passa por outros temas como gastos com saúde, ajuda aos pobres, entre outros. Além, é claro, dos capítulos polêmicos sobre o free-lunch puzzle do welfare state: para Lindert, os gastos sociais dos Estados de bem-estar social não prejudicaram o crescimento dos países. Pelo contrário, teriam tido até efeito benéfico para o crescimento, além é claro dos óbvios benefícios em relação ao bem-estar imediato da população.

Outro livro importante sobre o tema é o de Claudia Goldin e Lawrence Katz, ambos de Harvard. "The Race Between Education and Technology" foi publicado no ano passado. Também nesse livro, pude pensar um pouco sobre a importância da descentralização tanto na parte de financiamento quanto na parte de provisão da educação. Isso teria sido importante naquele momento dos Estados Unidos (isso não significa que descentralização é bom sempre), permitindo que o país assumisse a liderança na educação. Ainda não consegui ler o que Goldin e Katz falam da situação educacional norte-americana não muito boa de hoje, embora eles provavelmente também já tenham publicado sobre o tema em revistas.

Do Brasil, onde a pesquisa sobre história econômica e educação avança a passos reduzidíssimos, pouco posso dizer. O trabalho de David Plank, que tem uma análise um pouco mais interessante para economistas, merece leitura (Política Educacional no Brasil: Caminhos da Salvação Pública. Porto Alegre: Artmed, 2001), mas existe pouca coisa além dos clássicos trabalhos de historiadores e educadores sobre o assunto.

Quem sabe minha dissertação de mestrado não soma algo a isso tudo...