Páginas

sábado, 27 de setembro de 2008

Monitoria

Fazem parte da vida do mestrando as atividades de monitoria. Todos os alunos da pós-graduação em Economia na FEA-USP são obrigados a dedicar um tempo aos alunos da graduação. Nesse semestre, a disciplina de Microeconomia II parou nas minhas mãos por intermédio de meu colega Richard.

Certamente, a atividade mais chata e cansativa da monitoria são as correções de provas. Por vezes, corrigir provas é como assistir ao horário eleitoral. É chato, mas eventualmente, aparece alguma bizarrice engraçada. Também mexe com a empatia, os sentimentos: assim como estupefatos assistimos às figuras que pretendem ser vereadores ou deputados, também muitas vezes dá pena dos alunos que conseguem criativamente escrever os absurdos mais diversos.

A parte que acho realmente divertida é dar aulas. Talvez os alunos não digam o mesmo: sempre há aquele grupo de alunos catatônicos sentados ao fundo, que às vezes nem parecem saber o que é um monopólio ou uma curva de custo marginal. Proporcionei-lhes uma rápida e pouco didática apresentação do equilíbrio de Nash.

Este post é mais um daqueles dedicados aos que se interessam por seguir em uma pós-graduação. Um resultado da falta de inspiração de alguém que passou metade da tarde corrigindo uma questão de prova.

domingo, 21 de setembro de 2008

Congressos, história econômica e pensamento econômico

Recentemente, ocorreu na FEA-USP um Simpósio de Pós-Graduação em História Econômica. Tive a oportunidade de participar com um artigo sobre educação e poder político no Brasil de 1930 a 1964. Como era um simpósio de pós-graduação, foi como um jogo na série B, mas minha primeira apresentação mais séria.

Uma lida nos resumos da maioria dos artigos do evento, no entanto, gerou um misto de preocupação e divertimento. Nos resumos já era evidente que muitos trabalhos ali deveriam ter qualidade muito aquém do esperado em cursos de pós-graduação sérios e bem conceituados que a maioria dos apresentadores representava. Não significa que meu trabalho fosse excelente, mas um nível de qualidade mínimo deveria ser exigido, e ali definitivamente não havia muitos trabalhos que satisfaziam esse requerimento. Muitos resumos eram inclusive hilários, tamanha era a falta de qualidade.

É preocupante que a pesquisa em história econômica no Brasil, além de voltada autisticamente para sua própria literatura, ignorando o que é publicado no exterior a respeito, esteja definhando sistematicamente em termos de qualidade. Talvez pela falta de interesse dos bons estudantes de Economia e História no assunto. Um bom sintoma disso é a pouca prioridade dada pela ANPEC em seu congresso para a área de história econômica: apenas seis trabalhos da área foram selecionados, em comparação com os 18 trabalhos da área de pensamento econômico, metodologia e economia política. E todos sabemos que pensamento econômico, à exceção de alguns poucos pesquisadores de excelência, é uma área muito mal estudada no Brasil.

Falando nisso, meu trabalho em justiça e desenvolvimento na concepção de Amartya Sen, embora não contribua com novidade alguma, foi selecionado para a conferência latino-americana sobre capacitações que ocorrerá no Uruguai em outubro. Infelizmente, a área de pensamento econômico na ANPEC não gostou muito. Dessa vez, não vai dar para ir para Salvador.

Cardeal Kasper fala de Lutero

Notícia veiculada na Ecumenical News International:

Catholics can learn from Luther too, says Cardinal Kasper


Frankfurt/Wittenberg (ENI). Roman Catholics can learn from the 16th-century Protestant reformer Martin Luther, the Vatican's top official for Christian unity, has said, as Protestant churches in Germany prepare to launch a 10-year series of events leading up to the 500th anniversary in 2017 of the Lutheran Reformation. In an interview published in the Frankfurter Allgemeine Zeitung newspaper, Cardinal Walter Kasper encouraged Catholics to read Luther's commentaries on the Bible, and his "hymns full of spiritual power". The cardinal said he also hoped Protestantism would return to the faith of Martin Luther, "who would have been deeply averse to all of today's liberal tendencies". [457 words, ENI-08-0756]

sábado, 13 de setembro de 2008

Matemática e Teoria Econômica

Semana passada, tivemos a oportunidade de assistir mais um dos seminários promovidos pelo ex-ministro Delfim Netto. Professor emérito da casa, Delfim sempre convida dois economistas, um da FEA e outro de fora, para debater assuntos de interesse acadêmico. Desta vez, o seminário foi sobre o papel da matemática na teoria econômica.

Não são tão poucos os que rejeitam completamente o uso da matemática na Economia, pelo menos no Brasil. É claro que esse preconceito tem se esvaecido com o tempo. Amartya Sen e Paul Krugman, economistas um pouco (apenas um pouco) menos rejeitados por setores heterodoxos, já falaram bastante da utilidade da construção de modelos e das vantagens do instrumental matemático. Não é de se surpreender que mesmo alguns pós-keynesianos tem usado modelos matemáticos, sem contar alguns marxistas analíticos.

O professor que representou a FEA no seminário foi o Chiappin, doutor em Filosofia, Física e Economia. Um professor excelente e de currículo invejável, cuja hiperatividade acadêmica lembra a dos renascentistas. Ele simplesmente quer saber sobre tudo. Antes dele, apresentou o professor da EPGE/FGV, Aloísio Araújo, um dos economistas brasileiros mais conhecidos no exterior por sua proeminência na área de Economia Matemática. O mérito de Araújo na preleção foi mostrar que os teoremas, corolários e proposições dos livros de microeconomia da pós-graduação têm alguma aplicação prática. Seus exemplos foram através de seu trabalho com a Lei de Falências utilizando o ferramental analítico da micro. O demérito foi que os pobres alunos da graduação que lá se encontravam estavam mais perdidos que "cusco em tiroteio".

O professor Chiappin resolveu misturar tudo então. Falou das suas áreas: filosofia, física e economia em uma palestra só. Foi fascinante ver aquele aquela interdisciplinaridade toda em uma pessoa só. Praticamente me convenceu que o grande desenvolvimento científico dos últimos séculos deriva-se da junção de geometria (a matemática à moda grega) com a álgebra (o jeito árabe) através de René Descartes e a superação de diversas concepções aristotélicas. Lembro que no Colégio Militar tive aulas de desenho geométrico: resolvíamos equações do segundo grau utilizando compasso e régua. No entanto, como disse Chiappin, só se sabia multiplicar até três dimensões com a geometria. Com a correspondência entre álgebra e geometria, a ciência simplesmente deu um salto.

A mensagem foi mais ou menos a seguinte: a matematização é um caminho muito rápido para o desenvolvimento da ciência, inclusive a Economia. No entanto, somos ainda amadores perto de físicos. Um bom motivo é que fenômenos econômicos e sociais são mais difíceis de serem modelados. A esperança é que se consiga cada vez mais avançar na matemática sem perder poder explicativo, o que às vezes parece acontecer.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

U2, Tolerância e Relativização

Ontem fui assistir o show U2 3D, utilizando a nova tecnologia de projeção que permite que vejamos as cenas como se tivessem profundidade, ou seja, três dimensões. Não obstante a novidade e a utilidade desta nova tecnologia (recomendo fortemente que vocês vejam um filme nos cinemas com essa tecnologia), vou tratar de outro assunto aqui. Um assunto diretamente relacionado so show do U2, uma banda que tem muito de suas letras e atitudes inspiradas em sua fé cristã.

Um conceito que ficou muito famoso nos shows do U2 é a idéia de coexistência: não importa em que acreditamos, devemos coexistir com os demais. Em resposta às guerras e conflitos religiosos, principalmente entre as grandes religiões monoteístas, todas relacionadas ao patriarca Abraão, o U2 tenta mostrar nos shows o quão estúpidos são esses conflitos. Sendo cristãos, eles enfatizam que cristãos, judeus e muçulmanos são filhos de Abraão e que essas brigas não faze sentido algum. Mais do que isso, em um momento do show, Bono relativiza o conceito de verdade dizendo que todas essas religiões são verdadeiras.

A história do U2 é fortemente ligada a suas origens cristãs. Até hoje é nítido que a fé deles está relacionada a seus posicionamentos políticos. Em muitas de suas letras, muitas vezes de forma ambígua, algumas vezes de forma clara, eles falam de sua fé em Cristo. Seus shows da última turnê terminaram com um crucifixo pendurado no microfone. Eles têm até uma canção que fala sobre a graça (Grace) magistralmente.

No entanto, embora goste muito do trabalho do U2, minha mente cartesiana e convencional não comporta a relativização da verdade, pelo menos ainda. É evidente que concordo com a idéia de coexistência, que é uma idéia de tolerância religiosa. A tolerância é fundamental nas sociedades e em nada contraria qualquer princípio ou idéia cristã. Muito pelo contrário, acredito que uma fé que prega o amor justamente vai ao encontro da idéia de tolerância, por mais que discordemos da posição dos outros. Entretanto, para eu tolerar o outro, eu não preciso necessariamente relaxar minhas convicções. Posso até fazer isso, mas a tolerância não decorre da relativização.

Como disse um ortodoxo americano em uma reunião sobre diálogo inter-religioso na Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas em 2006, pregar a relativização como único caminho para a tolerância é um tiro no próprio pé para a unidade cristã. Sempre haverá setores religiosos que não relativizarão, causando divisões dentro dos próprios cristãos. Nem por isso esses setores devem deixar de tolerar aqueles professam outra religião. Muito pelo contrário, quando pregamos a tolerância entre religiões, devemos justamente fazer as pessoas entenderem que a tolerância é aprender a conviver com o diferente. Se todos relativizam, temos uma mesma massa. Nesse caso, a tolerância não é mais necessária.

O U2 não precisa dizer que tudo é verdade para que aprendemos a tolerar uns aos outros. Eles não vão conseguir fazer todos se tornarem relativistas. Eles talvez devessem é dizer que não importa no que acreditamos, tolerar é necessário. A vida é mais importante que os dogmas, mesmo que acreditemos firmemente neles.

*Agradecimentos ao P. Cláudio Kupka pelo convite para ver o U2 3D e por suas palestras sobre a relação entre U2 e fé cristã.