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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Lutero, Kant e Liberdade

Ao longo da história do pensamento, diversos conceitos de liberdade surgiram e tornaram-se importantes. Diferentemente das tradições anteriores, o protestantismo luterano, por exemplo, formulou outro conceito de liberdade. Segundo Lutero em seu pequeno livreto “Da Liberdade Cristã”, o homem se tornava livre através da fé em Cristo, embora se tornasse escravo de todos pelo amor. Não obstante a paradoxal idéia luterana provenha da influência agostiniana e, portanto, neoplatônica, que ele recebera como monge, Kant parece ter bebido dessa fonte também.

Kant era de família protestante de tradição pietista. O pietismo foi um movimento de avivamento espiritual que surgiu na Europa e perpassou diferentes tradições protestantes. Os pietistas valorizavam muito o estudo das Escrituras e a educação. Isso explica o fato de que muitos renomados intelectuais germânicos eram oriundos de famílias pietistas. Exemplos como Kant e Goethe já são suficientes. A visão religiosa pietista herdada por Kant certamente inspirou seu conceito de liberdade, uma vez que a liberdade para filósofos como Locke não tinha nada a ver com o que Kant propôs. Para Kant, a liberdade existia quando o indivíduo obedecia a lei moral dentro de si: as pessoas são fins em si mesmos e, portanto, nunca podem ser meios para se atingir outra coisa. Isso é o famoso imperativo categórico kantiano: categórico porque vale para qualquer tempo e lugar, é uma verdade a priori. Quando uma pessoa deixa de fazer algo que deseja para obedecer uma lei moral, ou seja, porque acha que determinada ação é correta, mesmo que isso seja negativo do ponto de vista pessoal, a pessoa está agindo em liberdade.

Contudo, esse conceito não vincula liberdade diretamente à fé. Kant acaba propondo um farisaísmo em torno da lei moral, por ela ser categórica. Talvez faça mais sentido pensarmos que a ação livre apenas ocorre quando obedecemos a Deus e não aos nossos desejos (ok, eles podem coincidir). Isso pressupõe algum grau de comunhão ou de relacionamento entre Deus e o indivíduo, o que em boa parte pode ocorrer através da oração. Nesse caso, o que é ético não é a obediência a uma lei categórica, mas sim a obediência a Deus – não há mais imperativo categórico, a um Deus que pode falar em cada situação, ou seja, uma ética circunstancial e centrada em Deus (não no homem). Desse modo, assim como Kant, a ação livre é vinculada à ética, mas ela não é a priori ou categórica. Só agimos em liberdade se obedecemos a Deus, mesmo quando isso nos desagrada e nos faz sofrer. Desse modo, deixamos Deus ser Deus, e não tentamos mais ser os juízes acerca do que é o bem ou o mal.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

"Acaso" não é uma resposta tão boa assim

Criticando a concepção materialista da medicina em 1949, o psiquiatra cristão suíço Paul Tournier escreve o seguinte acerca dos defensores de que o ser humano é simplesmente uma máquina:

"Segundo essa perspectiva, o homem assemelha-se a uma máquina ou, mais precisamente, a um conjunto de máquinas. Assim como um automóvel é um conjunto de diversas máquinas, cilindros, gerador, carburador, radiador, diferencial, etc., o homem seria um complexo conjunto de diferentes máquinas: dos sistemas digestivo, respiratório, nervoso, urinário, etc., solidários entre si, porém independentes. O ideal da ciência, para melhor compreender o funcionamento de cada uma dessas máquinas, é isolá-las do conjunto e estudá-las em si mesmas. Cada uma delas será reduzida então a fenômenos físico-químicos que não têm nada do que seja propriamente vivo e humano.

[...] Uma única diferença subsiste entre a máquina humana e a máquina industrial, com a qual é comparada, e que faz com que a primeira (vale o paradoxo) seja mais materialista do que a segunda: no caso do automóvel, o agrupamento das diferentes peças foi concebido por um engenheiro, tendo em vista o rendimento do conjunto; no homem, ao contrário, segundo a explicação científica clássica, a colocação dos diversos órgãos no organismo humano, bem como suas diversas funções físico-químicas, devem-se ao acaso." (p. 44)



Como nada sei de medicina, não sei até que ponto continua valendo essa concepção médica. Mas o exemplo de Tournier mostra que creditar o a existência do ser humano ao acaso talvez não seja tão óbvio assim.


Tournier, Paul. Mitos e Neuroses: desarmonia da vida moderna. São Paulo: ABU Editora e Viçosa: Ultimato, 2002.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Igualitarismo símio

Comecei a ler um pequeno livro do famoso cientista político Robert A. Dahl chamado "On Political Equality" (New Haven: Yale University Press, 2006). Após discorrer brevemente sobre Hume, Kant e Rawls, Dahl detalha-nos o seguinte experimento feito com macacos. Seria uma pista das origens das nossas noções de justiça e igualdade, as quais estariam além da razão:

Female capuchin monkeys were taught to exchange tokens - granite pebbles - with the experimenter in return for grapes and cucumbers. Previous experiments had shown that in 90 percent of the trials the female monkeys preferred grapes to cucumber slices, and that in less than 5 percent of the cases they failed to hand back the token in exchange for the food. Two monkeys were than placed in their cages in pairs so that each could see the other and observe which of the two rewards the other received. The experimenters observed that if one monkey was given a cucumber in return for her pebble but saw that the other received more valued grape, the former often reacted by either refusing to hand over the pebble or choosing not to eat the cucumber. (p. 37-8)


sábado, 9 de fevereiro de 2008

Ética e realidade II

Em toda a discussão ética que se travou neste blog, é evidente que sou cético em relação a um sistema a priori de determinação daquilo que seria certo ou errado. Utilizando argumentos conseqüencialistas, tentei racionalizar o ponto a meu favor. No entanto, não vou esconder o raciocínio teológico que me orienta um pouco nessas questões. O ponto a ser criticado é a razão prática kantiana, que influencia um pouco nossos amigos libertários. Embora eles não tratem de mentiras, o ponto é o imperativo categórico "pessoas são fins e não meios".


Se Kant, partindo do principio da veracidade, chega à grotesca conclusão de que eu deveria responder com sinceridade também ao assassino que invadiu minha casa em perseguição a um amigo meu, neste caso a autojustificação da consciência, exacerbada até a insolência ultrajante, bloqueia a ação responsável. Se responsabilidade é a resposta global e condizente com a realidade que o ser humano dá ao chamado de Deus e do próximo, aqui transparece claramente o caráter parcial da resposta dada por uma consciência comprometida com princípios. A recusa de ferir o princípio da veracidade por causa do meu amigo, a recusa de mentir descaradamente por causa do meu amigo - pois toda tentativa de minimizar o fato da mentira procede novamente da consciência legalista e autojustificadora -, a recusa, portanto, de assumir a culpa por amor ao próximo me coloca em contradição com a minha responsabilidade fundamentada na realidade. Também aqui, na assunção responsável de culpa e inocência, a consciência tera a melhor oportunidade de provar se está comprometida tão-somente com Cristo.



Dietrich Bonhoeffer (2005[1943]).
Ética. 7 ed. São Leopoldo: Ed Sinodal, p. 136.