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sábado, 7 de julho de 2007

Resposta ao Stein I: salário-eficiência

Stein dos Rabiscos, com sua eloqüência e conteúdo habituais, criticou duramente meu post recente. Vamos por partes, começando pelo salário-eficiência.

A idéia de que o salário-eficiência é uma situação que se sustenta no equilíbrio é uma idealização. Parte do pressuposto implícito de que não exista uma competição entre os trabalhadores empregados e os desempregados. Os desempregados que realmente quisessem trabalhar estariam dispostos a assinar contratos que garantissem sua produtividade. Além disso, se os trabalhadores não querem produzir a quantidade “X” ao salário “Y”, eles se enquadram na categoria de desemprego voluntário, ou seja, não fazem parte do desemprego do qual Keynes falava. Portanto, os salários são flexiveis e o que a teoria do salário-eficiência descreve é apenas um dos motivos pelos quais os trabalhadores decidem não trabalhar.

Segundo Romer (2005), cap. 9, o qual trata do desemprego, a hipótese fundamental tanto no modelo básico de salário-eficiência como no modelo de Shapiro-Stiglitz é que há um problema de monitoramento do esforço, o que é importante uma vez que a produção da firma é também função do esforço do trabalhador [F(eL)]. Em nenhum momento que eu me lembre, conjectura-se sobre alguma hipótese de que não há competição entre trabalhadores. Em particular, o modelo de Shapiro-Stiglitz destaca que não se esforçar no trabalho e ser pego implica em demissão, levando à contratação de outro trabalhador (uma vez que assume-se já existir desemprego na economia). Dado o problema de monitoramento, a firma paga um salário mais alto que o de equilíbrio Walrasiano, diminuindo o incentivo do trabalhador a não se esforçar. E não é que no mundo vemos trabalhadores esforçados e preguiçosos?

É claro que abstração sempre existe. O que afirmei no meu post anterior refere-se ao grau de abstração. A suposição de custo de monitoramento é uma tentativa de tentar incorporar melhor um problema do mundo real, que não nega princípios econômicos mais abrangentes aprioristicamente definidos. Apenas mostra outros fatores que impedem que o ajustamento seja perfeito, como dito pela teoria econômica - embora possamos dizer que suas leis sejam ainda válidas, caso assim queiramos. Modelos de salário-eficiência nada têm a dizer sobre isso. A gravidade continua acelerando a 9,8m/s. Isso não significa que a pedra necessariamente caia obtendo tal aceleração em virtude de outros fatores (resistência do ar, por exemplo). Se a Física ignorasse isso, não existiria aerodinâmica. É da mesma forma que considero o modelo de salário-eficiência novo-keynesiano: não nega leis de mercado, mas considera outros fatores relevantes.

Lembremos também que novo-keynesianismo é ortodoxia. Depois falo mais sobre matemática, ortodoxia e retórica.

PS: Misturar praxeologia com economia neoclássica é perigoso, principalmente se o leitor ortodoxo gostar de Popper.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Platão, imperfeições e novos-keynesianos

Na Grécia Antiga, Platão costumava diferenciar o mundo das idéias do mundo real. No mundo ideal, as formas eram perfeitas e suas correspondentes no mundo real eram apenas cópias imperfeitas. Nos intervalos de nossas sucessivas reencarnações, as almas contemplavam o perfeito mundo das idéias e reconheciam seus correspondentes no mundo real. Pensando em um exemplo, reconhecemos que pitbulls e puddles são cachorros porque lembramos vagamente de sua forma ideal, embora pitbulls e puddles sejam bastante imperfeitos.

Compreender o mundo das idéias exigia abstração e Platão acreditava que a matemática, da forma geométrica trabalhada pelos gregos, era a melhor forma de compreender o ideal. A escola fundada por ele, a Academia, destacava-se por estudar intensamente a matemática, que era, portanto, um método superior de aquisição de conhecimento.

Não obstante a motivação platônica fosse o ideal, em certos campos do conhecimento, a matemática tornou-se o único método válido, embora nada garanta que conhecimento matemático seja melhor que outro tipo. Evidentemente, a matemática e a modelagem têm suas vantagens na questão, por exemplo, do rigor lógico. É uma linguagem com regras bastante precisas. A Economia foi um dos campos que, a partir da revolução marginalista (década de 1870), introduziu a matemática definitivamente na teoria econômica, transformando-a em norma retórica, simbolo de rigor acadêmico. Entretanto, a economia ocupa-se do real e modelos demasiadamente abstratos tendem a ser idealizações. Contra a excessiva generalização, a Deutsche Historische Schule bem que tentou contender contra essa tendência na Economia em um conjuntos de debates batizados de Methodenstreit. Essa escola desapareceu ao exagerar na defesa do caráter idiossincrático dos processos sociais e do excessivo historicismo.

Assim, a ortodoxia econômica desenvolveu bastante seu arcabouço de ferramentas, permitindo modelagens cada vez mais complexas. A herança platônica, no que tange a matemática, realmente ficou. Por outro lado, muitas modelagens passaram a considerar as chamadas imperfeições de mercado. Embora ainda simplificassem certos aspectos da realidade, romperam com a excessiva idealização. Isso não significa que modelos muito simplificadores sejam inúteis, mas imperfeições em modelos podem aumentar nosso entendimento acerca do mundo real. Os modelos chamados novos-keynesianos como, por exemplo, Fischer (ajustamento nominal incompleto) ou Shapiro-Stiglitz, o qual considera a possiblidade do esforço do trabalhador ser incentivado por salários maiores que o de equilíbrio Walrasiano (salário-eficiência) levando ao desemprego, são tentativas claras de, sem deixar de utilizar as vantagens do linguajar matemático, tentar incorporar as imperfeições do mundo real. Mesmo modelos de informação imperfeita como o de Lucas são reconhecimento disso. O mundo não tem preços flexíveis na maioria das situações, arrisco dizer. Um pouco disso devemos a Joan Robinson e sua teoria de concorrência imperfeita (1933).

A Física, há mais tempo que a Economia, reconhece isso: MRU ou MRUV são os modelos mais simplórios deles, nos quais temos uma simplificação bem grande. Muito úteis como primeiros passos, mas insuficientes quando temos que considerar resistência do ar e outros problemas que possam atrapalhar a trajetória que tentamos calcular. Outros modelos são usados, os quais tentam reconhecer a existência de muitos fatores que podem alterar a trajetória.

O mundo ideal é apenas uma visão grega de milênios atrás, mas Platão, sem querer, nos alerta até hoje para os perigos da excessiva simplificação. Embora útil, os modelos são as if: como se fossem, recorrendo a Friedman. Mas discordando de Friedman, precisamos tentar nos aproximar mais do que realmente é quando tratamos de ciência. Predição e explicação não são duas faces de uma mesma moeda.