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Mostrando postagens com o rótulo ética

Justiça Global?

Quando comecei a estudar justiça distributiva lá na cadeira de Política e Planejamento Econômico com o Flávio Comim , comecei a ter contato com as ideias de Rawls. Só aprofundei um pouco o conhecimento no assunto a partir de uma disciplina na Ciência Política da USP sobre o tema com o Álvaro de Vita . No entanto, nunca tive a oportunidade de estudar com mais profundidade o tema da "globalização justa" (apesar do Prof. Álvaro entender do assunto, mas eu não consegui me aprofundar). A pergunta é: como lidar com as questões de justiça em um mundo cada vez mais interligado? Comecei a ler "One World" do filósofo Peter Singer (clique aqui para ver a versão em português do livro ), um livro sobre a ética da globalização. Já no primeiro capítulo, Singer critica Rawls por se limitar à justiça dentro (within) de uma sociedade em um livro gigante como "Uma Teoria de Justiça" . Embora Rawls tente lidar com o tema em "O Direito dos Povos" , Singer vê como i...

Ética, cooperação e equilíbrios

O papel da ética no desenvolvimento tem sido discutido há muito tempo na história do pensamento econômico, ainda que os advogados do egoísmo ético como Stigler e Friedman continuem a seguir à risca os passos de Mandeville, afirmando que “vícios privados” geram “benefícios públicos”, como bem mostrou Giannetti (Vícios Privados, Benefícios Públicos: a ética na riqueza das nações. São Paulo: Companhia das Letras, 2007). Na economia contemporânea, os benefícios da cooperação passaram a fazer parte da agenda de pesquisa através de trabalhos como os de Olson (1957) sobre ação coletiva, Arrow (1959), entre outros. O recente Nobel dado a Oliver Williamson e Elinor Ostrom também está relacionado a essa agenda. Temas como capital social, em que se destacam Putnam (1993) e Coleman (1988), tem tudo a ver com o papel da ética na economia – em que pese diretamente a contribuição de Sen (Ética e Economia. São Paulo: Companhia das Letras, 1999). O teólogo Valério Schaper das Faculdades EST me cham...

O teólogo Bonhoeffer e sistemas econômicos

Di etrich Bonhoeffer foi um brilhante teólogo luterano que foi morto pelo regime nazista. Assim como alguns outros teólogos, ele se posicionou contrariamente ao nazismo e à Igreja Evangélica Alemã da época que era pró-governo. Seus escritos na prisão são fonte de inspiração para muita gente. Estive relendo seu livro inacabado sobre ética. Achei uma parte sobre a opinião da igreja em assuntos econômicos. Vale a pena ser lido: "É de se perguntar, por exemplo, se o capitalismo, o socialismo ou o coletivismo, são estruturas econômicas que atrapalham a fé. Para a Igreja, aqui há uma postura dupla: por um lado , numa delimitação negativa, terá que declarar nefastas as mentalidades e sistemas econômicos que manifestamente dificultam a fé em Jesus Cristo. Por outro lado , só poderá dar colaboração positiva para uma reestruturação baseada na autoridade do conselho responsável de especialistas cristãos, não com a autoridade da Palavra de Deus. Ambas as tarefas devem ser rigorosamente disti...

Fazendo as malas pra Suíça

Com uma Bíblia, alguns papers para ler, um livro e um monte de presentes, estou indo para a Suíça. Meu vôo parte às 18h30 de Guarulhos, pára em Zurique. Depois pego outro vôo para Genebra, onde participarei da reunião do Grupo de Assessoria em Assuntos Econômicos do Conselho Mundial de Igrejas.  Meu texto sobre ética cristã e desenvolvimento já está pronto, com muitas referências à abordagem das capacitações. Felizmente, para escrever este curto texto (menos de 15 páginas), que deve ser publicado pelo CMI, contei com intenso apoio do grupo temático de desenvolvimento humano e religião da  Human Development and Capability Associatio n. Sabina Alkire, do QEH de Oxford , economista e reverenda anglicana, fez vários comentários legais. Outras pessoas também fizeram vários comentários, como o Alex Stahlhoefer e o Henrique Renck. Domingo e segunda visitarei meus amigos suíços que vivem em Bern. Provavelmente meus melhores amigos estrangeiros. Terça dia 19 devo estar de volta ao Brasil.

Egoísmo

Como economistas, costumamos sempre considerar pessoas egoístas ou auto-interessadas. Embora não sejam termos necessariamente sinônimos, muitas vezes são.  O ponto é se as pessoas são sempre auto-interessadas em seu comportamento. Há espaço para outras motivações para além do auto-interesse? Antes de talvez ler livros como "Sobre Ética e Economia" de Sen, tão citados nos posts anteriores e que tratam extensivamente do assunto, talvez seja interessante consultar a Stanford Encyclopedia of Philosophy . Há nesse site uma discussão sobre egoísmo , bastante elucidativa para a economia, tratando de conceitos que utilizamos. 

Aborto e estupro: posicionamento oficial da IECLB

Clicando aqui , temos um resumo acerca do posicionamento da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil sobre o caso da menina que, estuprada pelo padrasto, teve seu filho abortado por decisão da mãe da menina. Declarações de clérigos católico-romanos pediram pela excomunhão dos médicos que fizeram a operação. O texto completo do posicionamento (que tem apenas três páginas), pode ser encontrado aqui . Tendo a concordar com o argumento geral de que a teologia luterana não pode desrespeitar " o critério de que a decisão deva ser tomada pelas pessoas implicadas, em responsabilidade própria". Acredito que “Deus, em sua graça, permite, em situações extremas como essa, opções carregadas de mal – pois o aborto certamente não é um bem – e as acolhe como expressão de um servir responsável ao próximo em necessidade.”

Mentiras e princípios em debate

Escrevi um pequeno e didático texto (pelo menos eu queria que fosse didático) tomando posição contrária a uma ética puramente baseada em princípios. O exemplo foi a questão da mentira. Este texto gerou um pequeno debate na internet, com o post do Richard em resposta ao meu e, posteriormente, com o post do Igor . Em resposta ao Igor, Richard rebateu . É um debate interessante para aqueles mais amigos da filosofia (amigo da filosofia é algo redundante, mas enfim). Os economistas strictu sensu não precisam se arriscar.

Ética e mentiras

Como acontece com muita gente, cresci ouvindo de meus pais que havia claramente o certo e o errado. Preto no branco. Uma questão de princípio. Balizas. Limites intransponíveis. Mentir é errado, por exemplo. Parece-me que para crianças, ensinar leis dessa forma é algo apropriado. Apenas depois é que temos condições de refletir melhor e avaliar as situações. Acredito que todos aqui já mentimos por questões consideradas nobres. Obviamente também já mentimos apenas para satisfazer nossos interesses mais egoístas. Entretanto, eu justificaria algumas das mentiras que já disse por aquilo que considerei ser um bom motivo. A mentira é apenas um exemplo entre tantos outros, mas bastante ilustrativo. Posso até afirmar categoricamente que a mentira é sempre algo ruim. O problema é quando a conseqüência de não mentirmos é algo pior do que a própria mentira. Imaginemos a situação em que dizer a verdade resulta na morte de alguém. Embora mentir seja ruim, podemos considerar a morte de alguém muito pi...

Resposta ao Diego: ética e crenças

Diego Rodrigues falou de seu posicionamento favorável acerca das pesquisas com células-tronco embrionárias. Se pudéssemos votar nessa questão, nossos votos coincidiriam. No entanto, Diego disse coisas com as quais discordo profundamente e achei que valeria a pena postar meu comentário por aqui também. Quem quiser entender a discussão, leia o texto dele e leia a minha resposta abaixo: Diego, vou ter que discordar profundamente de ti em algumas questões. Até agora, tenho sido a favor das pesquisas, embora considerando que a decisão não é simples. No entanto, a forma que tu atacou o pensamento religioso não faz muito sentido quando tu quer falar sobre ética. Ética tem a ver necessariamente com nossas concepções de mundo, sejam elas religiosas ou não. Podemos atribui-las a Deus, a filósofos ou a quem quer que seja. Tu dizes que "o ético não pode ser confundido com a crença, com a bíblia, com os valores e ideologias que sustentam concepções de mundo e de vida". Mas o ético trata...

Células-tronco embrionárias (atualizado)

O STF está em vias de aprovar a pesquisa com células-tronco embrionárias, apesar dos protestos das alas conservadoras (e com esse termo não estou procurando desqualificá-las) principalmente ligadas ao catolicismo romano. Quatro dos juízes parecem estar inclinados a votar contrariamente à permissão, mas espera-se que o lado a favor das pesquisas vença, uma vez que o STF é composto por onze ministros, sendo que alguns, como a Ellen Gracie, já anteciparam seu voto a favor. Não conheço a fundo os argumentos de ambos os lados, mas tentarei expor o que sei a respeito. Os argumentos contra a liberação baseiam-se em princípios bem claros. Recorrendo à concepção de que a partir da fecundação temos uma vida humana, as pesquisas acarretariam necessariamente em homicídios com os experimentos. Esse é um argumento baseado em princípios. No entanto, os que são contrários apóiam-se também no fato de que as pesquisas feitas com células-tronco embrionárias não chegaram a qualquer resultado positivo até ...

Políticas públicas e conseqüências

Costumamos debater pelos lugares onde passamos, geralmente em bares ou nas universidades. Política pública é um assunto comum: cotas, aborto ou Bolsa-Família são assuntos recorrentes. No entanto, muitas vezes nos deparamos com pessoas que parecem simplesmente papagaiar frases ditas por outros. Algumas vezes, são conceitos simplesmente passados de geração em geração, repetidos por filhos de um proprietário de terras ou de um ex-militante comunista. Talvez uma das grandes vantagens de se estudar Economia é a possibilidade de refletir melhor sobre as questões através da imensa literatura publicada em revistas da área a respeito de políticas públicas. Não que os estudos determinem fatalmente qual é a posição correta a ser defendida: a análise econômica, que tem algum poder para descobrir que conseqüências certas políticas podem gerar, é muito útil para refletirmos, embora não seja a palavra final em termos de certo ou errado. O julgamento da política ultrapassa isso, embora a análise conse...

Ética e realidade II

Em toda a discussão ética que se travou neste blog, é evidente que sou cético em relação a um sistema a priori de determinação daquilo que seria certo ou errado. Utilizando argumentos conseqüencialistas, tentei racionalizar o ponto a meu favor. No entanto, não vou esconder o raciocínio teológico que me orienta um pouco nessas questões. O ponto a ser criticado é a razão prática kantiana, que influencia um pouco nossos amigos libertários. Embora eles não tratem de mentiras, o ponto é o imperativo categórico "pessoas são fins e não meios". Se Kant, partindo do principio da veracidade, chega à grotesca conclusão de que eu deveria responder com sinceridade também ao assassino que invadiu minha casa em perseguição a um amigo meu, neste caso a autojustificação da consciência, exacerbada até a insolência ultrajante, bloqueia a ação responsável. Se responsabilidade é a resposta global e condizente com a realidade que o ser humano dá ao chamado de Deus e do próximo, aqui transparece cl...

Natal

Este blog gostaria de desejar a todos um Feliz Natal. Afinal, Natal é uma data importante. Também por permitir uma desculpa para famílias se reencontrarem, para descansar daquela loucura, para descansar um pouco. Mas evidentemente, há a razão principal para a comemoração do Natal. Acho que Dietrich Bonhoeffer, em sua "Ética" nos fala corretamente acerca do significado de Jesus, o ser humano: Jesus Cristo, o ser humano, isto significa que Deus entra na realidade criada, que podemos e devemos ser seres humanos perante Deus. A destruição da humanidade é pecado e se constitui em obstáculo para Deus redimir o ser humano. Mesmo assim, a humanidade de Jesus Cristo não significa simplesmente a confirmação do mundo existente e da natureza humana. Jesus foi ser humano "sem pecado" (Hb 4.15). Este é o aspecto decisivo. (Bonhoeffer, 2005 [1949], p. 77) Mas ao contrário daqueles que querem fazer da igreja apenas um instrumento de mudança social (compromisso) ou daqueles que a...

Violações de direitos podem ser justificadas?

Está ocorrendo um debate interblogs. Ao comentar um texto do blog "Depósito de..." do meu colega de mestrado e anarco-capitalista libertário Richard, perguntei-lhe: E quando A pode impedir que B mate C, mas para fazer isso, tem que invadir a propriedade de D? O que fazer? Para os libertários, violar direitos naturais é impensável. A resposta de Richard veio neste texto bastante esclarecedor . Contudo, Renato Drumond, de um ponto de vista liberal mais "light" contra-argumentou em seu blog "Democrata Liberal" . Para contribuir com o debate da forma que posso, uma vez que sou um neófito em relação a esse assunto, transcrevo de onde tirei essa pergunta. Sobre os critérios libertários de Robert Nozick, afirma Amartya Sen (1999, p. 88-89) em "Sobre Ética e Economia": Se a pessoa A estiver violando gravemente algum direito de B, por exemplo, espancando-o, a pessoa C tem o dever de ajudar a impedir isso? Adicionalmente, C estaria correto ao cometer algum...

Comida ou ética?

Muitos, ao interpretarem Marx, entenderam que o material se sobrepunha ao ideal: cultura, crença e valores seriam resultados que derivariam da infra-estrurura da sociedade, ou seja, das condições materiais. Vários outros marxistas dirão que isso é equívoco, pois não está muito de acordo com a dialética. Seja lá qual for a interpretação correta, a relação unidirecional do material ao ideal ficou conhecida. Giannetti faz uma crítica meio óbvia e que parece razoável: [...] vale notar, a falácia grotesca da fórmula brechtiana, ingenuamente materialista, "primeiro a comida, depois a ética". A sobrevivência, é verdade, é condição para tudo o mais. Mas, sem ética, a própria sobrevivência fica comprometida. Sem ela, não há ordem social, paz ou "comida" - há desagregação, guerra e fome. É a economia que se ergue sobre a infra-estrutura ética. (Giannetti, 2007, p. 101). Giannetti, E. Vícios privados, beneficios públicos? A ética na riqueza das nações . São Paulo: Companhia d...

Mill e psicologia individual

Por uma infelicidade do destino, fui educado acerca do trabalho do economista e filósofo inglês John Stuart Mill através do péssimo livro de história do pensamento econômico de E. K. Hunt. Isso denegriu um pouco a imagem de Mill que carreguei por algum tempo, mesmo sabendo que a obra de Hunt deixa bastante a desejar. Stuart Mill tinha como objetivo principal fazer um síntese entre a economia política clássica de Ricardo e o utilitarismo de Jeremy Bentham, a principal corrente ética da época. Eduardo Giannetti, em seu livro "Vícios Privados, benefícios públicos?" * mostra a posição de Mill sobre a psicologia humana: Referindo se a Bentham (mas o mesmo valeria também para Ricardo), Mill afirmou: "O homem, aquele ser mais complexo, é muito simples aos seus olhos". Simplificações drásticas da conduta humana, como o hedonismo psicológico de Bentham ou o "homem econômico" ricardiano, podiam ter alguma validade (limitada) enquanto hipóteses comportamentais em teo...

A lucidez de Max Weber

Embora poucos economistas leiam o velho Max Weber, certas passagens demonstram que ele já sabia o que ainda é considerado novidade na economia. Por exemplo, vejam essa passagem que, inicialmente, parece ser uma crítica aos modelos: Os tipos ideais de ação social que, por exemplo, são usadas na teoria econômica são portanto irrealistas ou abstratos, pois sempre perguntam que curso de ação ocorreria se esse fosse puramente racional e orientado apenas para fins econômicos. (p. 21) Mais adiante, no entanto, Weber explica: Quanto mais claro e preciso é o tipo ideal construído, ou seja, quanto mais abstrato e irreal é nesse sentido, mais apto está o tipo ideal para desempenhar suas funções em formulação de terminologia, classificações e hipóteses. (p. 21) E para aqueles que pensam que Sen foi o primeiro a associar ética (compromisso) à racionalidade, esse trecho talvez seja bem esclarecedor. No mínimo, Sen deveria citá-lo: Exemplos de [ações orientadas para] racionalidade de valor pura seri...

Racionalidade econômica e suas limitações

Debate-se muito acerca do pressuposto de racionalidade que a economia neoclássica adota. O conceito de racionalidade econômica é bastante restrito e sofre críticas das mais diversas. As duas mais elaboradas são certamente as propostas por Herbert Simon e por Amartya Sen. De maneira alguma se desconsidera aqui os importantes resultados atingidos com os modelos baseados em escolha racional. De fato, a maioria dos modelos é muito útil. Contudo, certas situações necessitam outras abordagens. Para deixar claro o que está se criticando, Sen trata das duas definições de racionalidade encontradas na economia. A primeira delas é a racionalidade como consistência. Por consistência, estamos falando da coerência interna das decisões tomadas pelos agentes. Um exemplo de consistência seria o pressuposto da transitividade, na qual dado que o agente prefere A a B e prefere B a C, logo ele tem que, por transitividade, preferir A a C. No entanto, essa idéia não faz nenhuma consideração aos objetivos: é ...

Otimalidade de Pareto: sintetizando

A otimalidade de Pareto, como bem chamou atenção meu amigo Guilherme Stein , é de fato o resultado encontrado em construções dedutivas da microeconomia através das trocas livres. De fato, nesse sentido , o ótimo de Pareto não é um julgamento moral. Todavia, a Economia do Bem-Estar utiliza a otimalidade de Pareto como critério de avaliação do bem-estar . Nesse sentido, utilizá-lo normativamente parece ser arbitrário, embora seja o resultado natural das trocas na caixa de Edgeworth na ausência de externalidades. Na verdade, a evolução da economia positiva impediu a sobrevivência de outros critérios de avaliação. A avaliação utilitarista clássica baseava-se no sum-ranking , a soma total das utilidades. Com as críticas de Lionel Robbins às comparações interpessoais de utilidades, como bem analisa Sen (1999) em "Ética e Economia", estas passaram a ser consideradas éticas/normativas. Assim, afirma Sen o seguinte: com o desenvolvimento da tendência anti-ética, quando as compara...