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Mostrando postagens com o rótulo história do pensamento econômico

Falecimento de Samuelson

Meu amigo Ricardo Leal acaba de me informar do falecimento de Paul Samuelson. Se pudéssemos falar de duas pessoas responsáveis pelo que a ciência econômica é hoje, elas seriam Paul Samuelson e Kenneth Arrow (que ainda está vivo). No obituário do NY Times, temos uma reportagem sobre ele . No site do Prêmio Nobel, podemos encontrar muita coisa sobre Samuelson clicando aqui . Ainda não apareceu nada no site do departamento de Economia do MIT , onde Samuelson lecionou por muito tempo.

Marginalismo e laissez-faire

Backhouse deixa claro que a conexão que costumamos fazer entre marginalismo e laissez-faire não faz sentido. Nada como um pesquisador sério de HPE para nos explicar: "although Jevons started his career a supporter of laissez-faire, by his last book [...] he had arrived at a position where he [...] found more and more contexts where state intervention was justified [...]: public health, working conditions, education, transport, and many others. Marshall, the dominant economist of the following generation, saw a smaller role for state intervention than did Jevons. However, he still assigned a significative role to the state, going along with the wider movement towards support for progressive taxation [...]. Though his socialism was somwhat limited, Walras even described himself as a socialist. If there was a causal link between socialism and marginalism, therefore, it did not involve marginalism being adopted as a way of defending laissez-faire against socialist criticism. Marginal...

Ética e história perdidas no pensamento econômico

Embora Jevons e Marshall tenham difundido com sucesso o uso do cálculo diferencial na economia, isso não significou que não tenham havido discussões sobre a questão da história e da ética e sua relação com a economia na Inglaterra. Backhouse, em seu Penguin History of Economics , menciona economistas como Thomas Leslie (1827-1982), que, influenciado pela Escola Histórica Alemã, propôs métodos mais indutivos, aparentemente com o mesmo excesso dos germânicos. Mas pelo menos, foi um inglês que reconheceu a importância das instituições (assim como os velhos históricos alemães como List e mesmo Adam Smith já reconhecia). Mas mais importante que ele foi Arnold Tonybee (1852-1883), que morreu com apenas 31 anos. Baseado em Oxford, rejeitava que a ética permanecesse separada da economia (principalmente em questões distributivas) e afirmou a autonomia da história econômica e social de outras formas de história. Ficou conhecido por ter popularizado o termo "Revolução Industrial". Ou...

Será que finalmente achei um bom livro geral de HPE?

Adquiri na semana passada um pequeno livro sobre a história da Economia de autoria de Roger Backhouse. Sendo um conhecido pesquisador no assunto, achei que valesse a pena. A partir do que li no índice e pelo primeiro capítulo, parece ser um livro interessante. Ademais, é um livro sem aparentes dificuldades: é possivel lê-lo no ônibus. O livro é o "The Penguin History of Economics" , o qual comprei por apenas R$ 31 na Livraria Cultura em uma edição paperback. Quase metade do livro se dedica àquilo que não sabemos de nossos cursos de HPE que costumamos ter na graduação: a Economia do século XX, que trata em boa parte da evolução da economia matemática e da econometria, além dos debates macroeconômicos que já são conhecidos. Farei um parecer assim que terminá-lo. Pelas primeiras páginas, parece muito melhor, por exemplo, do que aquele horroroso livro do E. K. Hunt.

Smith e Keynes na visão de Sen

Novamente, como fã do pop-star Amartya Sen, farei propaganda de um escrito seu no New York Review of Books . Sen escreveu um pequeno artigo sobre a crise, o capitalismo e as idéias de Smith, passando por Keynes e por seu professor Pigou, tão mencionado negativamente na Teoria Geral. Vou copiar alguns trechos que merecem ser transcritos (agradeço a Ana Barufi por mandar o mapa da mina): " For example, the pioneering works of Adam Smith in the eighteenth century showed the usefulness and dynamism of the market economy, and why—and particularly how—that dynamism worked [...]" "[...] the huge limitations of relying entirely on the market economy and the profit motive were also clear enough even to Adam Smith. Indeed, early advocates of the use of markets, including Smith, did not take the pure market mechanism to be a freestanding performer of excellence, nor did they take the profit motive to be all that is needed." "Smith's economic analysis went well beyond ...

Qual o conceito de desenvolvimento? - parte 1

Economistas não costumavam usar muito o conceito de "desenvolvimento econômico" antes do século 20. Alguns falaram de "desenvolvimento das forças produtivas" e o objeto de estudo da Economia nos clássicos era algo parecido com o que veio a ser o conceito mais difundido. Smith estudava a riqueza das nações, assim como Stuart Mill definiu a riqueza como o objeto de estudo da Economia Política Clássica. Não muito diferente do que viria a ser considerado desenvolvimento por um bom tempo. No entanto, talvez um marco do uso do conceito "desenvolvimento econômico" seja a obra de Schumpeter em 1911 (ele usa o termo Wirtschaftlichen Entwicklung ). Mas a sua conceituação é algo bem original e que não teve muita continuidade, à exceção dos chamados neo-schumpterianos, que são poucos. Para Schumpeter, desenvolvimento diferiria de crescimento porque o primeiro exigiria o rompimento do fluxo circular via inovações. Uma diferença teórica, que levou Furtado a dizer que S...

Congressos, história econômica e pensamento econômico

Recentemente, ocorreu na FEA-USP um Simpósio de Pós-Graduação em História Econômica. Tive a oportunidade de participar com um artigo sobre educação e poder político no Brasil de 1930 a 1964. Como era um simpósio de pós-graduação, foi como um jogo na série B, mas minha primeira apresentação mais séria. Uma lida nos resumos da maioria dos artigos do evento, no entanto, gerou um misto de preocupação e divertimento. Nos resumos já era evidente que muitos trabalhos ali deveriam ter qualidade muito aquém do esperado em cursos de pós-graduação sérios e bem conceituados que a maioria dos apresentadores representava. Não significa que meu trabalho fosse excelente, mas um nível de qualidade mínimo deveria ser exigido, e ali definitivamente não havia muitos trabalhos que satisfaziam esse requerimento. Muitos resumos eram inclusive hilários, tamanha era a falta de qualidade. É preocupante que a pesquisa em história econômica no Brasil, além de voltada autisticamente para sua própria literatura, ig...

Mill e psicologia individual

Por uma infelicidade do destino, fui educado acerca do trabalho do economista e filósofo inglês John Stuart Mill através do péssimo livro de história do pensamento econômico de E. K. Hunt. Isso denegriu um pouco a imagem de Mill que carreguei por algum tempo, mesmo sabendo que a obra de Hunt deixa bastante a desejar. Stuart Mill tinha como objetivo principal fazer um síntese entre a economia política clássica de Ricardo e o utilitarismo de Jeremy Bentham, a principal corrente ética da época. Eduardo Giannetti, em seu livro "Vícios Privados, benefícios públicos?" * mostra a posição de Mill sobre a psicologia humana: Referindo se a Bentham (mas o mesmo valeria também para Ricardo), Mill afirmou: "O homem, aquele ser mais complexo, é muito simples aos seus olhos". Simplificações drásticas da conduta humana, como o hedonismo psicológico de Bentham ou o "homem econômico" ricardiano, podiam ter alguma validade (limitada) enquanto hipóteses comportamentais em teo...

Keynesianismo não pára em pé sozinho

Afirmam muitos que o mundo, até algumas décadas atrás, era um mundo keynesiano. De fato, as proposições político-econômicas de Keynes inspiraram a onda de intervenção estatal na economia após a crise de 1929. Contudo, embora a maioria dos economistas fossem keynesianos, existia uma diferença bem clara entre eles: haviam os keynesianos da síntese neoclássica e outros keynesianos um pouco mais próximos de Marx. Mas não haviam keynesianos apenas keynesianos? A controvérsia do capital destacou muito bem os economistas dessas duas correntes: Paul Samuelson, na Cambridge americana, foi responsável pelo manual de economia estudado por milhares de economistas, cuja formalização e estilo tornaram-se referência para todos os manuais posteriores. Do outro lado, na Cambridge inglesa, Joan Robinson liderava um grupo de keynesianos que acusavam o keynesianismo ortodoxo de ser bastardo. Robinson, após contribuir com uma teoria de concorrência imperfeita, aproximou-se de Marx na década de 40, embora r...

Utilitarismo

O utilitarismo muito influenciou a Ciência Econômica ao longo de sua história. Seu surgimento como uma teoria de justiça deve-se a Jeremy Bentham, que viveu na Inglaterra do século XVIII. Posteriormente, o utilitarismo tornou-se parte integrante da ortodoxia econômica a partir de sua adoção por John Stuart Mill, já no século XIX. Naquela época, o utilitarismo já era bastante conhecido nos meios intelectuais: era a teoria ética dominante. A consagração veio depois com a escola marginalista e neoclássica com William S. Jevons e Alfred Marshall no final do século XIX e Francis Edgeworth e A. C. Pigou no XX, por exemplo. É evidente que o utilitarismo foi sendo aperfeiçoado enquanto isso. Embora nos estudos de HPE, o utilitarismo se destaque e todos já tenham ouvido falar dele em algum momento, poucos sabem no que de fato consiste o pensamento utilitarista. Amartya Sen, em cujos escritos tenho baseado meus últimos posts (quando eu acabar de lê-los, prometo mudar), tenta detectar uma es...