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Mostrando postagens com o rótulo justiça

Justiça Global?

Quando comecei a estudar justiça distributiva lá na cadeira de Política e Planejamento Econômico com o Flávio Comim , comecei a ter contato com as ideias de Rawls. Só aprofundei um pouco o conhecimento no assunto a partir de uma disciplina na Ciência Política da USP sobre o tema com o Álvaro de Vita . No entanto, nunca tive a oportunidade de estudar com mais profundidade o tema da "globalização justa" (apesar do Prof. Álvaro entender do assunto, mas eu não consegui me aprofundar). A pergunta é: como lidar com as questões de justiça em um mundo cada vez mais interligado? Comecei a ler "One World" do filósofo Peter Singer (clique aqui para ver a versão em português do livro ), um livro sobre a ética da globalização. Já no primeiro capítulo, Singer critica Rawls por se limitar à justiça dentro (within) de uma sociedade em um livro gigante como "Uma Teoria de Justiça" . Embora Rawls tente lidar com o tema em "O Direito dos Povos" , Singer vê como i...

Publicação

Recebi em casa na sexta o meu exemplar do livro "Justice Not Greed", editado por Pamela Brubaker e Rogate Mshana . Neste livro, estão contidos todos os artigos apresentados em uma reunião do Grupo Assessor em Assuntos Econômicos do Conselho Mundial de Igrejas, que se reuniu em maio de 2009 a fim de debater a crise. Entre eles, está meu capítulo "Christian Ethics, Development and Economic Crises: An Ecumenical Perspective". É minha primeira publicação a sair do prelo. Um bom motivo para comemorar.

Justiça e pessoas com deficiência

Nessa semana, estamos na Semana Nacional da Pessoa com Deficiência. Confesso que achei difícil encontrar qualquer coisa a respeito, tirando em sites de órgãos como a APAE . Fiquei sabendo disso pelo site de minha própria igreja na verdade. Infelizmente, isso é pouco divulgado. Muitos acham que política ou economia não tem muito a ver com isso. Mas quando lidamos com questões de justiça, é importante considerarmos as pessoas com deficiência. Essas pessoas geralmente precisam de mais renda e de mais facilidades do que as outras a fim de que tenham uma vida de razoável conforto. É a partir dessa constatação, de que nem todas as pessoas têm a mesma capacidade para converter renda em bem-estar, que Amartya Sen critica visões que se baseiam na igualdade de renda como objetivo maior (sem contar todos os problemas de incentivos). Mesmo que não houvesse problemas de incentivos, tal objetivo ainda seria eticamente questionável. Pensemos não apenas nas pessoas com deficiência, mas também em que...

Auto-interesse e individualismo metodológico

Quem tiver acesso ao jornal Valor, conferir na edição de hoje a coluna de Ricardo Abramovay sobre o livro "The Idea of Justice" de Amartya Sen. Temos discutido até que ponto reconhecer motivações além do auto-interesse (por exemplo, simpatia ou compromisso - as clássicas categorias do artigo de 1977 de Sen, "Rational Fools" da Philosophy and Public Affairs ) realmente significam afastamento de individualismo metodológico, como o próprio autor parece defender em seu livro. Lembro que um defensor do individualismo metodológico, Max Weber, costumava colocar entre as motivações da ação humana não apenas a categoria zweckrational (racionalidade instrumental), como também a categoria wertrational (racional de valor). Compromissos éticos poderiam entrar nessa categoria. No final das contas, qual a relação entre auto-interesse e individualismo metodológico? Eu acreditava que eram coisas distintas. Agora estou na dúvida. Quem quiser saber mais sobre individualismo metodoló...

Paper no prelo

Meu paper "Justiça e Desenvolvimento no Pensamento de Amartya Sen" foi aceito para publicação na Revista de Economia Política - REP. Ou como dizem alguns, na Brazilian JPE. Brincadeiras à parte, é uma das revistas mais importantes de Economia no país (gostem ou não, hehe). Resta saber em que edição ele será publicado. De quebra, virei parecerista da mesma revista imediatamente. Anunciam que vão publicar meu paper e já me mandam trabalho. Assim que é bom, hehe. PS: Eu gosto da REP, mas também gosto de piadas. =)

Campanha da Fraternidade

O tema da Campanha da Fraternidade desse ano é "Economia e Vida", como a mídia tem propalado nos últimos dias. Como tem acontecido a cada cinco anos, a Campanha da Fraternidade desse ano é ecumênica, contando com a participação não apenas da Igreja Católica Romana, mas também de todas as outras igrejas do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil , o CONIC. As declarações têm sido polêmicas, muito críticas ao modelo atual do capitalismo. O reverendo anglicano Luiz Barbosa, secretário-geral do CONIC, chegou a fazer referências a partidos - não em tom necessariamente elogioso, mas que já gera polêmicas. Ainda não ouvi pronunciamentos do Pastor Carlos Möller, luterano (e pai de meu amigo Mathias) e presidente do CONIC. Estando indiretamente envolvido nesses assuntos, por estar participando de debates parecidos no Conselho Mundial de Igrejas, acredito que várias das críticas levantadas pelas igrejas são válidas. De fato, o dinheiro tem adquirido caráter divino - aquilo que o...

Rawls e religião

Passeando pela rede, deparei-me com escritos sobre a relação entre o filósofo John Rawls e a religião. Um excelente artigo sobre o tema , de autoria de dois filósofos muito conhecidos, Joshua Cohen e Thomas Nagel, mostra que algumas das concepções de Rawls são originadas de seu passado religioso. Segundo o artigo: he [Rawls] “became deeply concerned with theology and its doctrines”, and considered attending a seminary to study for the Episcopal priesthood. But he decided to enlist in the army instead, “as so many of my friends and classmates were doing”. By June of 1945, he had abandoned his orthodox Christian beliefs. Muito do que Rawls pensou posteriormente tem ligação com seus pensamentos cristãos na juventude. A sua rejeição do mérito como requisito de justiça tem certamente origem na idéia de graça, tão defendida por Paulo, Agostinho e Lutero. É provável que daí também se origine o igualitarismo de Rawls: “There is no merit before God. Nor should there be merit before Him. True co...

Desigualdade ou pobreza crônica?

Encontrei o Prof. Sabino recentemente em minhas andanças pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS, onde fiz minha graduação. Leitor assíduo de diversos blogs, Sabino comentou sobre a minha pergunta do post anterior: por que afinal somos desiguais? Há alguns que defendem que apenas a pobreza crônica deva ser combatida. Podemos argumentar moralmente com relativa facilidade em favor disso. Entretanto, defender algum tipo de igualdade já é mais complicado. Em primeiro lugar, precisamos saber de que tipo de igualdade estamos falando: a clássica pergunta do primeiro capítulo de Desigualdade Reexaminada: equality of what? Igualdade de renda é complicado em diversos aspectos. Além de desconsiderar diferenças de necessidade (pessoas muito doentes, por exemplo, precisam de mais renda), também desconsidera diferenças de capacidade (o que para os mais meritocráticos, é terrível). Ademais, há o problema da eliminação dos incentivos, quando utilizamos o pressuposto de que pessoas geralmente o...

Utilitarismo e subjetivismo

Há pouco mais de um mês, fiz algumas perguntas a Eduardo Giannetti após uma palestra proferida por ele. Como eu disse em um post anterior , eu esgotei o pobre coitado. Minha pergunta pra ele foi sobre sua posição pessoal acerca do utilitarismo e da abordagem das capacitações. Ele evitou responder diretamente sua posição, mas depois de um tempo, disse que era muito crítico ao utilitarismo. Em meus poucos estudos sobre justiça distributiva, lembro que classicamente a utilidade pode ser identificado com (a) prazer, (b) felicidade e (c) satisfação de desejo (esse argumento está bem claro em um clássico artigo de Amartya Sen chamado "Well-Being, Agency and Freedom: the Dewey Lectures, 1984", publicado na Journal of Philosophy em alguma edição de 1985). Quaisquer dessas opções nos levam a um forte subjetivismo. É comum, por causa disso e até pela forma com que a Economia trata das funções de utilidade, que liguemos utilitarismo diretamente a subjetivismo. No entanto, não precisa se...

Esperando...

Em setembro de 2007, fui à Nova York para ver a Conferência da Human Development and Capability Association. Na palestra principal, Amartya Sen discorreu sobre as principais idéias de seu novo livro sobre justiça, que ele estava escrevendo. Uma palestra muito legal, com direito a comentários de George Soros, o especulador keynesiano. Nesse meio tempo, escrevi um paper para uma matéria de Teorias de Justiça que fiz lá no Departamento de Ciência Política da USP. O paper discorre sobre as idéias de justiça e desenvolvimento no pensamento de Sen. Incentivado pelo Prof. Álvaro de Vita, arrumei o texto, enviei para a conferência latino-americana sobre capacitações em Montevideo ocorrida em outubro de 2008 e ainda enviei uma versão para uma revista. Cheguei a enviar para a o congresso da ANPEC, mas a banca marxista não viu qualidade e/ou validade no meu trabalho. A revista não me respondeu até hoje. Pensei que era importante publicar isso antes do lançamento do livro do Sen. Finalmente, ao pa...

Auto-promoção: Kang fala sobre Amartya Sen

O Lucas Mendes do blog Austríaco tem estudado os escritos de Amartya Sen, uma vez que ele tem trabalhado com Rawls e os libertários em seu mestrado em Filosofia Política pela UFSM. Não acho que eu seja o mais indicado, mas o Lucas achou que eu poderia falar sobre Sen para o seu blog, apesar do blog Austríaco ser um divulgador de idéias libertárias. Vocês podem achar a entrevista que concedi clicando AQUI. (Agradeço a dica do Enoch). De qualquer forma, agradeço a oportunidade: foi boa pra relembrar Sen, que foi deixado um pouco de lado após a conclusão de meu trabalho sobre Teorias de Justiça em janeiro. Enquanto isso, vou aproveitando o fim de semana chuvoso de turismo no Rio de Janeiro...

O debate liberal-igualitário - parte II

O foco nos fins ao invés dos meios na definição do equalisandum gerou estranheza para John Rawls, que argumentou da seguinte maneira: [...] an index of primary goods is not intended as an approximation to what is ultimately important as specified by any particular comprehensive doctrine with its account of moral values. (Rawls, 1988, p. 259). A idéia de Rawls, ao focar nos bens primários, era reafirmar que a sua concepção de justiça era política e que, portanto, não poderia definir o que é o certo (ou o bem). Equalizar bens primários, para que a partir daí os indivíduos buscassem seus próprios objetivos, foi a solução encontrada como alternativa a dominante métrica utilitarista, ainda hoje infuente na teoria econômica do bem-estar. Sen respondeu em paper na Philosophy and Public Affairs (1990, versão levemente modificada em Sen 1993) afirmando que Rawls tinha interpretado erroneamente a crítica dele. Para Sen, Rawls não levara em conta a diferença fundamental entre capability e funct...

O debate liberal-igualitário - parte I

No debate sobre justiça, temos um pequeno debate entre Rawls e Sen. Um debate em família, na verdade, como diz Roemer (1996). Ambas são propostas do chamado liberalismo igualitário, mas se diferenciam em um aspecto fundamental para um teoria igualitária: eles adotam equalisanda diferentes. O equalisandum - ou seja, aquilo que deve ser equalizado - para Rawls são os chamados bens primários, que são coisas que todo ser humano racional presumidamente desejaria. Rawls de certa forma define alguns deles no seguinte trecho: For simplicity, assume that the chief primary goods at the dispositions of society are rights and liberties, powers and opportunities, income and wealth. [...]. These are social primary goods. Other primary goods such as health and vigor, intelligence and imagination, are natural goods; although their possession is influenced by the basic structure, they are not so directly under its control. (Rawls, 1971, p. 62) A crítica de Sen para a escolha de uma forma de recurso ...

Perfeccionismo moral e subjetivismo welfarista

O problema que vejo no debate que vem sendo travado até agora é saber se (a) não estamos caindo em algum tipo de perfeccionismo moral e, (2) se algum tipo de perfeccionismo moral é aceitável. Quando falo de perfeccionismo, estou me referindo a concepções morais como as defendidas na Grécia Antiga: o homem estaria próximo à perfeição moral à medida que participasse ativamente da vida política da pólis. Dessa forma, estavam definidos que tipo de vida um homem devia levar - trata-se de uma concepção objetiva. Do lado oposto, temos a idéia welfarista, traço marcante do utilitarismo, na qual a satisfação de desejos subjetivos torna-se a métrica. Na concepção clássica de Bentham, falava-se na dicotomia prazer-dor. Quem sabe o que é o melhor para si é o indivíduo. Se, como disse o Joel, uma pessoa gosta de se enlamaçar ou fazer qualquer outra coisa que a maioria das pessoas considere absurda, não importa: o que importa é que ele está agindo de acordo com suas preferências. Contudo, ambas as ...

Os estranhos marxistas analíticos

Na disciplina de Teorias de Justiça, que curso no Departamento de Ciência Política, preciso entregar um trabalho sobre um dos tópicos trabalhados em sala durante o semestre. Disse ao professor que puxaria para a Economia, tendo como resposta a indicação de um livro chamado "Theories of Distributive Justice" de um economista. John Roemer (1996) formalizou elegantemente nesse livro as principais teorias de justiça. Mais do que isso, ele era conhecido por ser um "marxista analítico", os caras que juntam Marx e filosofia analítica (como me corrigiu o Drumond - vide comentários). Só vim a entender um pouco de como Roemer pensa ao ler essa passagem da introdução: I do not deal with the theory of exploitation because [...] after studying it for some time, I came to believe that it is not in itself a fundamental theory of (in)justice. I do not mean that workers are justly treated under capitalism, but rather that the view that what's unjust about their treatment is expl...

Nova teoria de justiça no forno

"Reasons for Justice". Pelo que entendi, esse será o novo livro de Amartya Sen propondo uma alternativa teoria de justiça. Justiça foi o tema da palestra Mabdul Ul-Haq que ocorre anualmente durante a conferência da Human Development and Capability Association. Para fazer justiça a algumas pessoas, Sen lembrou de Ul-Haq e de Rawls, para quem ele deve muito de suas idéias. Em sua palestra, Sen enfatizou quatro pontos: (1) vida e liberdades (freedoms), (2) responsabilidade e poder efetivo, (3) abordagem comparativa e não-transcendental e (4) desenvolvimento humano como abordagem que cobre irrestritamente e globalmente. Outra hora, em momento mais apropriado, posso também comentar a respeito disso. Jogados dessa forma, os pontos apresentados parecem não fazer sentido algum. Embora o sotaque indiano de Sen tenha me impedido de entender a maior parte das piadas, acho que entendi a mensagem. Essas características são as que diferenciam a teoria de Sen das outras teorias contemporâne...