Pular para o conteúdo principal

Notas sobre a China (2)

A China é um assunto muito mais interessante do que essa discussão entre blogs acerca do paper da PUC-Rio. Prefiro continuar com esse foco, ainda inspirado por minha recente viagem relatada alguns dias atrás.

Interessante nome para um café, não?
Como disse anteriormente, nossa visita foi recebida pelo Conselho Cristão da China (CCC). O Ministério de Assuntos Religiosos do país cuida das cinco religiões reconhecidas por lá: o taoísmo, o budismo, o islamismo, o catolicismo e o protestantismo (os dois últimos não estão sob o "Cristianismo" e, portanto, são tratados como religiões diferentes pelo Estado Chinês).

O representante do governo afirmou que não se permitia a interferência externa em assuntos religiosos na China. Perguntado sobre o papel do Vaticano na nomeação de bispos católicos, o que caracterizaria uma intervenção externa, o vice-ministro foi categórico: quem nomeia os bispos na China não é o Vaticano. A única justificativa foi que muitas mudanças ocorreram após o Vaticano II. Rapidamente, passou-se para outro assunto.

O CCC, que representa os protestantes, nos recebeu muito bem. Tudo era muito organizado. As pessoas que nos acompanhavam eram sempre muito atenciosas. As traduções simultâneas em palestras foram de alta qualidade.  Eles nos mostraram sua escola de teologia, sua fundação diaconal (a Amity Foundation), além da editora - uma fábrica enorme de bíblias e outros materiais. Inclusive, ganhamos uma Bíblia bilíngue inglês-chinês personalizada, que veio direto da esteira de produção. Nossos dois colegas cegos receberam bíblias em braile. Da hospitalidade chinesa, não se pode reclamar mesmo.

Em termos de identidade talvez tenha sido mais complicado. Todos os chineses se dirigiam a mim em mandarim. Ficavam estupefatos quando percebiam que eu não podia falar chinês. A coisa piorava quando eu afirmava ser brasileiro (imaginem aquela típica expressão oriental de surpresa).

Certamente, conhecer a China foi uma experiência marcante. Fico curioso para saber como o país reagirá às contradições trazidas pela ocidentalização e pela integração aos mercados mundiais de maneira cada vez mais forte. Será que Acemoglu e Robinson, que não acreditam que a China superará o Ocidente enquanto for autoritária, estarão certos?






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero. O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente. O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero ...

Cotas e incentivos

Os resultados do vestibular da UFRGS tem novamente gerado discussões a respeito da política de cotas. A adoção de um sistema de cotas pela UFRGS, no qual 30% das vagas foram reservadas para candidatos egressos de escolas públicas, sendo que metade dessas para negros auto-declarados, desde que atingissem certo patamar mínimo, gera enorme polêmica principalmente agora. Muitos candidatos, que seriam aprovados caso não existisse essa política, sentem-se injustiçados e pretendem entrar com um processo contra a universidade. As denúncias poderiam se basear no princípio constitucional da isonomia. Sem querer discutir a justiça ou não de tal sistema, uma análise dos incentivos de um sistema de cotas no médio prazo pode ser interessante para entender que possíveis reações ela pode provocar. Uma das possibilidades seria uma alteração na demanda das famílias por escolas particulares: passa a valer menos a pena pagar uma escola cara para o filho, uma vez que há reservas de cotas para alunos de esc...

Endogeneidade

O treinamento dos economistas em métodos quantitativos aplicados é ainda pouco desenvolvido na maioria dos cursos de economia que existem por aí. É verdade que isto tem melhorado, até porque não é mais possível acompanhar a literatura internacional sem ter conhecimento razoável de técnicas econométricas. Talvez alguns leitores deste blog ouçam falar muito em endogeneidade ou variáveis endógenas, principalmente no que se refere a modelos econométricos. Se pensamos em modelos de crescimento endógeno, o "endógeno" significa que a variável que causa o crescimento é determinada dentro do contexto do modelo. Mas em econometria, embora não seja muito diferente do que eu disse na frase anterior, endogeneidade se refere a "qualquer situação onde uma variável expicativa é correlacionada com o erro" (Wooldridge, 2011, p. 54, tradução livre). Baseando-me em um único trecho do livro do Wooldridge (Econometric Analysis of Cross-Section and Panel Data, 2 ed, 2011, p. 54-55) ...