Pular para o conteúdo principal

Polarização e crise institucional - 15 meses depois

::: Escrevi esse texto em 21/10/2014 no Facebook, logo antes do segundo turno, preocupado com a estabilidade institucional. Agora temos um governo e uma economia em frangalhos, elementos do Judiciário claramente ativistas, um ambiente que parece os anos 50-60 - ou seja, uma crise institucional. Se eu fosse mudar o texto, eu talvez revisasse o uso do conceito de "desenvolvimentismo" (já que foi uma distorção tosca e ainda mais deletéria dele) e lamentasse mais a escolha trágica (eu "marinei" no primeiro turno, o que também não era uma grande opção). Por outro lado, crises mudam coisas: pode ser para o bem ou para o mal. Tenho personalidade pessimista e avessa ao risco, mas oremos. :::

Votei na Dilma em 2010 porque reconhecia no Brasil de até então a melhor experiência de inclusão social e diminuição da desigualdade na América Latina - com manutenção de instituições democráticas e estabilidade macroeconômica durante a gestão Lula.
O país melhorou, mas o governo Dilma mudou o modelo definitivamente. O Desenvolvimentismo é conservador, autoritário e pouco humano (a ditadura militar também gostava dela) - muito pior do que o tripé macroeconômico de FHC e Lula. Esse meio-desenvolvimentismo, tentando se adaptar a uma democracia e fingindo que valoriza estabilidade macroeconômica é talvez o pior de todos, porque ninguém sabe o que vai acontecer amanhã: nem crescimento alto gera (o único benefício que políticas desenvolvimentistas poderiam trazer, ainda que com custos humanos altíssimos). Uma política macroeconômica mal conduzida, por seu insucesso e pelos conflitos excessivos que geram, compromete as conquistas sociais, a estabilidade política e pode se tornar uma ameaça às instituições democráticas.
O Aécio é mais conservador em diversos aspectos, eu sei. Muitas pessoas, com valores bem próximos aos meus, têm a mesma posição crítica que eu em relação às duas candidaturas, mas votarão na Dilma porque veem no Aécio coisa ainda pior. Fiquei indeciso por um tempo e entendo perfeitamente quem faz a opção pela continuidade. Mas diante do intenso maniqueísmo, ainda mais estimulado pela campanha da incumbente, e do risco que isso representa à nossa jovem democracia, optei em não votar na Dilma. Em geral, retrocessos institucionais são precedidos por polarização - e no Brasil não tivemos poucos episódios do tipo. Isso talvez desagrade quem tem valores parecidos com os meus, mas é preciso ser fiel à sua consciência - e, por isso, espero respeito ao meu posicionamento.
Não sei quem vai vencer, mas que tanto vencedores quanto perdedores entendam que instituições democráticas são o nosso patrimônio mais importante, até para não colocar em risco os avanços sociais no longo prazo. Só assim teremos um país desenvolvido, livre e igualitário. Isso em um futuro ainda distante - até porque, quem quer que vença, teremos quatro anos difíceis pela frente.
PS: O antropólogo Luiz Eduardo Soares talvez tenha sido a pessoa que melhor captou minha percepção: http://www1.folha.uol.com.br/…/1533101-luiz-eduardo-soares-…
PPS: Eduardo Jorge, Eduardo Campos e Marina eram opções melhores.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e os camponeses

São raros os momentos que discorro sobre teologia neste blog. Mas eventualmente acontece, até porque preciso fazer jus ao subtítulo dele. É comum, na minha condição declarada de cristão luterano, que eu sempre seja questionado sobre as diferenças da teologia luterana em relação às outras confissões. Outra coisa sempre mencionada é o episódio histórico do massacre dos camponeses no século XVI, sancionado por escritos de Lutero. O segundo assunto merece alguma menção. Para quem não sabe (e eu nem devo esconder isso), Lutero escreveu que os camponeses, que na época estavam fazendo uma revolta bastante conturbada, deveriam ser impedidos de praticarem tais atos contrários à ordem - inclusive por meio de violência. Lutero não mediu palavras ao dizer isso, o que deu a justificativa para a violenta supressão da revolta que ocorreu subsequentemente. O objetivo deste post não é inocentar Lutero do sangue derramado sobre o qual ele, de fato, teve grande responsabilidade. Nem vou negar que Lutero ...

Cotas e incentivos

Os resultados do vestibular da UFRGS tem novamente gerado discussões a respeito da política de cotas. A adoção de um sistema de cotas pela UFRGS, no qual 30% das vagas foram reservadas para candidatos egressos de escolas públicas, sendo que metade dessas para negros auto-declarados, desde que atingissem certo patamar mínimo, gera enorme polêmica principalmente agora. Muitos candidatos, que seriam aprovados caso não existisse essa política, sentem-se injustiçados e pretendem entrar com um processo contra a universidade. As denúncias poderiam se basear no princípio constitucional da isonomia. Sem querer discutir a justiça ou não de tal sistema, uma análise dos incentivos de um sistema de cotas no médio prazo pode ser interessante para entender que possíveis reações ela pode provocar. Uma das possibilidades seria uma alteração na demanda das famílias por escolas particulares: passa a valer menos a pena pagar uma escola cara para o filho, uma vez que há reservas de cotas para alunos de esc...

Endogeneidade

O treinamento dos economistas em métodos quantitativos aplicados é ainda pouco desenvolvido na maioria dos cursos de economia que existem por aí. É verdade que isto tem melhorado, até porque não é mais possível acompanhar a literatura internacional sem ter conhecimento razoável de técnicas econométricas. Talvez alguns leitores deste blog ouçam falar muito em endogeneidade ou variáveis endógenas, principalmente no que se refere a modelos econométricos. Se pensamos em modelos de crescimento endógeno, o "endógeno" significa que a variável que causa o crescimento é determinada dentro do contexto do modelo. Mas em econometria, embora não seja muito diferente do que eu disse na frase anterior, endogeneidade se refere a "qualquer situação onde uma variável expicativa é correlacionada com o erro" (Wooldridge, 2011, p. 54, tradução livre). Baseando-me em um único trecho do livro do Wooldridge (Econometric Analysis of Cross-Section and Panel Data, 2 ed, 2011, p. 54-55) ...