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sexta-feira, 30 de março de 2012

Minha mãe é pé-frio

Observem o gráfico de Renda Nacional Bruta (PPP) per capita de Coreia do Sul e Brasil desde 1980 (retirados daqui).


Minha mãe, sul-coreana, chegou ao Brasil em 1981. Mais ou menos nessa época, enquanto o Brasil entrava em crise, a Coreia acelerava o seu catching-up. Ou seja, onde a minha mãe está, a economia está estagnada. Ou seja, a causa da estagnação da Coreia deve ser a minha mãe, certo?

Ou será que na verdade a causa tem a ver com o gráfico abaixo? Meus cumprimentos a Krugman e a Bernstein.



quinta-feira, 29 de março de 2012

Protecionismo: Debate na blogosfera

A conversa iniciada pelo Cristiano gerou debate na blogosfera. O Lucas da Economia Marginal resolveu então colocar uma série de links interessantes acerca do debate sobre protecionismo, motivado pelo Cristiano. Eu mesmo já havia escrito algo a respeito há pouco tempo, quando resolvi criticar alguns aspectos do livro "Chutando a escada". Eu tenho apenas algumas conclusões a respeito disso tudo:

  • Embora todos os resultados de livre comércio possam ser desafiados se colocarmos alguma hipótese de imperfeição de mercado, o fato é que muitas vezes mercados são de fato imperfeitos. Não é por outro motivo que Stiglitz (que ganhou o Nobel principalmente por seus escritos acerca de informação imperfeita) por vezes defende o protecionismo em alguns casos, como ocorre nesse livro. A literatura teórica em protecionismo encontra justificativas possíveis em transbordamentos, learning-by-doing e imperfeições no mercado de crédito (ver Feenstra e Taylor, cap. 9, ou qualquer livro atual de economia internacional). 


  • Proteger tem custos. Quem paga os custos? E o quanto da proteção que existe pode ser explicado por economia política? São questões importantes acerca dos custos da política (custos sempre há: podem ser maiores ou menores que os benefícios).

  • Adotar uma postura radicalmente contra o protecionismo ou contra o livre comércio em qualquer contexto não parece estar de acordo com a evidência empírica até hoje existente, embora evidentemente várias análises empíricas sejam limitadas. É claro que nem sempre nosso posicionamento deve defender o que foi encontrado na análise empírica (até por suas limitações), mas reconhecer que elas existem e refletir sobre isso é fundamental para o debate acadêmico construtivo.


quarta-feira, 28 de março de 2012

Agency condition e história econômica

Rompendo um pouco a regularidade dos meus posts (que normalmente ocorrem às terças e sextas): esse post do blog do NEP-HIS é bastante interessante. Trata-se de um comentário sobre um paper do Van Zanden, conhecido historiador econômico holandês, acerca da relação entre o conceito de agência (agency) em Amartya Sen e sua possível utilização na história econômica. Para quem se interessa pelas duas áreas (justiça distributiva e história econômica), talvez seja uma leitura importante.

terça-feira, 27 de março de 2012

Pobreza no curto ou no longo prazo?

Recentemente temos visto que programas de transferência de renda como o Bolsa-Família tem reduzido a pobreza (apesar das controvérsias na definição de linhas de pobreza), assim como também a desigualdade de renda (os dados podem ser vistos no Ipeadata, ou peguem esse paper aqui do IPC-UNDP). Mas ainda sabemos pouco dos efeitos de longo prazo com relação à redução da pobreza.

O Bolsa-Família, assim como a versão anterior mexicana (o Oportunidades), é caracterizado por ser uma transferência condicional de renda. Ele é focado nos pobres, mas condiciona a ajuda a determinadas exigências, tais como frequencia escolar dos filhos. Outras propostas de transferência, no entanto, existem. Mesmo libertários como Friedman e alguns outros economistas, por exemplo, falaram em imposto de renda negativo. Philippe Van Parijs tem uma defesa moral da renda básica de cidadania, tão propagada por gente como o Suplicy no Brasil. Por outro lado, existem transferência de bens - ou seja, ao invés de se dar uma quantia em dinheiro, pode-se financiar determinados bens. Por exemplo, subsidiar uma escola pública universal. Essa solução pode ser mais eficaz para combater a pobreza intergeneracional de longo prazo.

Sobre todos esses assuntos, acho que um bom texto é o de Dilip Mookherjee chamado "Persistence of Poverty and Design of Antipoverty Policies", contido aqui nesse livro. Há um série de trade-offs em políticas de pobreza - e saber das consequencias teóricas dessas políticas permite um desenho melhor e uma análise qualificada dos programas existentes. Infelizmente, ainda são poucos os estudos empíricos no tema, mas certamente trabalhos teóricos como os de Mookherjee e Ray (2003), Maoz e Moav (1999) ou Ljungqvist (1993) podem fornecer interessantes subsídios de análise. Afinal, é melhor dar dinheiro ou melhor dar em espécie (educação por exemplo)? Ou será melhor dar dinheiro condicionado á educação? É necessário focalizar ou universalizar? Mais do que uma mera discussão de princípios nessas questões, as consequências de tais políticas também devem estar em pauta na minha opinião, para termos melhores condições de avaliar tais programas.  Quais serão os resultados empíricos para coletar dados?

sexta-feira, 23 de março de 2012

Presidência do Banco Mundial

Jeff Sachs estava há algum tempo fazendo uma espécie de campanha para que ele fosse indicado pelos EUA para a presidência do Banco Mundial. No seu blog, ele parabenizou a indicação de Jim Yong Kim feita pelo presidente norte-americano Barack Obama. Traduzindo um pouco do que Sachs quis dizer,  Kim é um verdadeiro "development practicioner" e, portanto, estaria qualificado para o cargo.

O grande desafio é que Kim, nascido na Coreia, mas atualmente reitor do Dartmouth College nos EUA, é médico e não economista. De fato, Kim é muito envolvido com a causa da saúde pública em países pobres. No entanto, em reportagem do Washington Post, muitos como Bill Easterly levantam suas dúvidas a respeito de ter um médico e não um economista liderando uma organização como o Banco Mundial. Todavia, quem sabe as políticas bottom-up estejam mais presentes com essa nova liderança: Kim não apenas é médico, ele tem doutorado em Antropologia por Harvard - antropólogos costumam ser mais preparados para fazer o meio-de-campo entre organizações e populações. Quebrar a lógica da politica top-down em direção ao bottom-up é uma busca constante. 

PS: Vejam aqui sobre a Partners in Health, organização com a qual Kim está envolvido há muitos anos. Observem que eles falam em "opção preferencial pelos pobres", frase típica da teologia da libertação (nesse ponto geral, concordo com a fundamentação bíblica da preferência pelos pobres).

PPS: Falando em religião, pobreza e Banco Mundial: minha colega e coordenadora Gabriele acaba de me passar o link desse livro sobre a pobreza e os valores judaico-cristãos.

PPPS: E falando em saúde, olhem esse post do Comim sobre nutrição.

terça-feira, 20 de março de 2012

Hentschke e Educação na Era Vargas

A incipiente literatura em história econômica da educação brasileira ainbda ignora o livro escrito pelo alemão Jens Hentschke sobre o tema. Em "Reconstructing the Brazilian Nation: Public Schooling in the Vargas Era", o historiador alemão traça as origens da política educacional de Vargas, passando pelo "Castilhismo" positivista quando o Partido Republicano Rio-Grandense dominava a política gaúcha, chegando às políticas varguistas a partir de 1930. Estudos de caso no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul adicionam evidências. Há uma completa revisão da literatura, além de um sério trabalho de documentos primários. Uma fonte valiosa, mas difícil de se achar, como pode se ver no site da Amazon - embora seja um livro editado em 2007. 

Eu jamais teria sabido do livro se não fosse a indicação do conhecido brasilianista Joseph Love. No Congresso Mundial de História Econômica em Utrecht, 2009, o simpático Love indicou-me esse estudo depois de discutir meu projeto de pesquisa. Defendi minha dissertação sem ter conseguido lê-lo - e já estou começando a ficar arrependido.

Observando essa citação do secretário Coelho de Souza sobre a situação da carreira docente em 1937, é impossível não pensar nos protestos dos sindicatos dos professores no RS, que tem reivindicado o salário mínimo para professores estabelecido pelo governo federal. O governo gaúcho pensou recentemente em modificar o plano de carreira dos professores, para ter condições financeiras de pagar o mínimo. Situação polêmica e complicada:

When taking over the post of Secretary of Education I found the scholastic profession in a deplorable situation [...] The absence of recognized and guaranteed [labor] rights; very limited possibilities for career developmen; subordination to the primary judgment of local bosses - this was what characterized the life of a teacher in Rio Grande (apud Hentschke, 2007, p. 87).


sexta-feira, 16 de março de 2012

Clipping: Copa, políticas sociais e welfare state



terça-feira, 13 de março de 2012

Ganhadores e perdedores

Lá no II ENBECO, um dos participantes fez uma daquelas perguntas chatas para os blogueiros durante a minha sessão: se você pudesse escolher um blog no mundo, que blog você escolheria. Confesso que fiquei confuso na hora e resolvi polemizar. Eu disse que gostava do blog do Dani Rodrik por levantar questões interessantes. A Roseli falou do blog do Krugman e o Shikida, do Marginal Revolution (bons blogs de fato!). Mas quando falei do Rodrik, o Cristiano logo reagiu em protesto.

O protesto do Cristiano é válido quando há papers como esse do Rodrik: regressões e resultados pouco convincentes do ponto de vista quantitativo e qualitativo, embora algumas das ideias ali presentes possa até estar correta. Mas o que eu gosto do Rodrik na blogosfera são as questões que ele levanta que normalmente economistas esquecem de falar sobre. Estou falando evidentemente de justiça distributiva, coisas que meus leitores estão cansados de ler sobre por aqui (o que valeu algumas piadas por parte do Shikida no II ENBECO).

Nessa semana, o Rodrik postou questões interessantes de justiça distributiva e globalização no Project Syndicate (esse é bom!). O grande problema da globalização é que ela gera ganhadores e perdedores (no comércio, por exemplo, como diz o nosso famoso Teorema de Stolper-Samuelson), apesar dos ganhos gerais que o comércio gera. Overall gains from trade são vantagens em termos utilitaristas, mas avaliações de um estado de coisas podem ser feitas com outros critérios, como sempre diz Amartya Sen. O que importa, para muitas pessoas, é como são gerados esses ganhos e perdas (procedural reasons). Outros se importam mais com resultados mesmo, mas sem necessariamente adotarem critérios welfaristas (se você não entendeu nada disso, leia o "Sobre Ética e Economia" do Sen).

Um bom debate, que gerou até um comentário na "The Economist". Avaliar comércio e globalização exige pensar sobre ética, por mais que alguns economistas tenham ojeriza a qualquer assunto que exija alguma avaliação subjetiva (leiam também o Peter Singer, One World). Nesse caso, melhor nem falar que comércio é bom: é uma avaliação que pode ter pressupostos welfaristas também - e que precisam ser discutidos. Isso não significa que eu não goste de comércio, gosto e é necessário (com ressalvas às vezes, é claro). Estou apenas chamando atenção que a questão é mais complicada do que parece ser.


segunda-feira, 12 de março de 2012

Após o II ENBECO

Como anunciado em vários blogs de economia no Brasil, o II Encontro Nacional de Blogueiros de Economia foi um sucesso. A primeira rodada, sobre a crise na Europa, com a participação dos blogueiros de A Consciência de Três Liberais, o ex-anônimo Drunkeynesian e The Duke of Hazard, foi bastante instrutiva. Em suma, para todos, a crise como disrupção ou como problema a ser resolvido imediatamente, acabou com os últimos acontecimentos relacionados à dívida grega. 

Em seguida, eu, Roseli e Shikida falamos sobre questões de ensino e pesquisa relacionadas aos blogs: tanto em seu papel direto nas atividades de ensino como ferramentas de formação complementar. Finalmente, o Felipe Salto e o Fernando Meneguin fizeram apresentações sobre a política fiscal. Cristiano Costa, um dos co-organizadores com o Shikida, somou-se à mesa. Uma pena que os convidados Ronald e o Mansueto não puderam comparecer ou enviar material.

No ano que vem, o III ENBECO é na FUCAPE em Vitória.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Europa, recessão e propaganda

A possível ameaça de dissolução do Euro, com a aguda crise pela qual passa o bloco e os problemas das dívidas de países como Grécia, Itália e Portugal, tem levado a reações temidas pelo resto do mundo. A perda de poder europeu na economia mundial pode levar o bloco europeu, principalmente as potências decadentes como a França, a tomar atitudes cada vez mais perigosas no plano das relações internacionais.  Pelo menos foi o que ouvi de alguns colegas especialistas na área. Mas esperamos que não violentas.

Em parte, podemos explicar o problema do Euro com a ideia do Robert Mundell (o mesmo do modelo Mundell-Fleming) de "áreas monetárias ótimas" (optimal currency areas). Uma vez que os países do Euro são muito diferentes entre si e reagem de forma distinta a choques, temos uma evidência de que o Eurozone não é uma área monetária ótima de acordo com a teoria econômica (pelo menos de acordo com um dos modelos do Mundell!) Mas evidentemente, o problema abrange não apenas a questão monetária: é muito maior.

Uma mostra dos comportamentos perigosos da Europa com a sua recessão é a recente propaganda televisiva veiculada pela União Europeia. À exceção de seu final, em que parece haver uma harmonia, durante o resto do vídeo, há uma oposição clara entre os BRICs e a Europa. Pelo menos é essa a ideia que o vídeo passa. Mas cada um tire suas próprias conclusões. Como noticiado no Portal Exame, a UE desculpou-se e retirou o vídeo do ar.


Agradeço a minha ex-aluna Louise Schmitt por me passar o vídeo.

E lembrem-se que, hoje à tarde, lá no IBMEC-MG, a blogosfera econômica está reunida no II Encontro Nacional de Blogueiros de Economia. Em breve, escrevo sobre o que ocorreu no evento.

terça-feira, 6 de março de 2012

Recursos Naturais ou Instituições?

No World Economic History Congress 2012, que será realizado em julho na África do Sul, haverá uma sessão dedicada a trabalhos sobre a maldição de recursos naturais (natural resources curse) na história econômica. Esse é um assunto interessante, uma vez que, desde o artigo de Sachs e Warner (1995), a questão de um possível papel negativo da abundância de recursos naturais no crescimento econômico voltou à tona.

Tendo em vista a ideia de vantagens comparativas e Dutch Diseases (Corden e Neary  é um dos artigos clássicos sobre doenças holandesas), é fácil pensar em um dos processos pelo qual o crescimento econômico de longo prazo pode ser afetado pela dotação de recursos. O crescimento do setor de recursos naturais em detrimento de outros setores que gerariam maior avanço tecnológico poderia estancar o crescimento econômico (ver também o Trade and Poverty do Jeff Williamson).

No entanto, é estranho pensar que, por si só, a abundância de recursos naturais seja responsável pela falta de crescimento dos países. No processo de crescimento inglês, por exemplo, a existência de recursos naturais baratos foi importante (segundo Bob Allen, por exemplo) para permitir a Revolução Industrial. Outros países como Noruega, quando encontraram petróleo, não seguiram o caminho do subdesenvolvimento como fizeram países árabes ou a Venezuela. 

É por isso que talvez a conexão entre recursos naturais e instituições deva ser mais pesquisada. A relação entre dotação de recursos e instituições nas origens coloniais, já ensaiada em Caio Prado Jr., apareceu com força na literatura econômica com Engerman e Sokoloff. E os noruegueses Mehlum, Moene e Torvik não podiam conciliar a ideia de maldição de recursos com o processo de crescimento de seu país. Não é à toa que eles têm um modelo que liga instituições a recursos naturais. É certamente um bom debate.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Sen no Brasil

Já foi amplamente divulgada, pelo menos na mídia gaúcha, a presença de Amartya Sen na primeira palestra da série Fronteiras do Pensamento. Essa série existe em São Paulo e Porto Alegre, lugares que Sen, portanto, visitará em Abril.

Por pura sorte, tive a oportunidade de ver uma palestra de Sen no auditório da New School em Nova York. Eu estava participando de um Congresso da Human Development and Capability Association. Esse evento se deu em meados de 2007 e a palestra foi muito produtiva, uma vez que Sen adiantou alguns resultados do livro que ele estava escrevendo. Na época, o título provisório era "Reasons for Justice", que veio a se tornar, em 2009, em "The Idea of Justice" (lançado pela Belknap Harvard). 

Lembro que, ao responder a uma jovem indiana que tinha lhe feito uma pergunta, Sen respondeu mostrando a diferença entre dois termos em sânscrito que se relacionam à justiça. Posteriormente, essa distinção entre niti e nyaya apareceu no livro. Além disso, Sen adiantou a diferença entre teorias de justiça "transcendentais", que buscam uma sociedade idealmente justa, e teorias de justiça "comparativas". Na verdade, Sen já havia falado nisso na Journal of Philosophy em 2006, mas para mim, que não tinha lido o artigo ainda, foi muito produtivo.

Recomendo a todos ver a palestra do Sen. Infelizmente, não poderei ir. O pacote de conferências do Fronteiras do Pensamento não sai por menos do que R$ 820, a não ser que você seja médico da Unimed ou participante de edições anteriores. Eu até compraria o passaporte para todas as conferências, uma vez que os conferencistas costumam ser de primeira linha. No entanto, elas não estivessem programadas para quarta-feira, dia em que ministro uma disciplina. De qualquer forma, recomendo - mesmo sem saber o assunto a ser tratado.