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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Sentimentos morais

O post anterior sobre a morte de Kim Jong-Il gerou intensa controvérsia. O principal motivo foi a minha alegação de que, embora qualquer pessoa possa não gostar e inclusive protestar contra o regime norte-coreano, sentimentos de "nojo" contra o regime deveriam ser monopólio das que se sentem de fato atingidas pelo regime.

Essa afirmação foi de fato um exagero. Acredito que podemos nos sentir revoltados moralmente por três motivos ao menos: (a) porque nos sentimos diretamente envolvidos com o problema, (b) porque nos sentimos indiretamente envolvidos com o problema (simpatia ou empatia), (c) porque uma situação é patentemente injusta, não interessando nosso grau de envolvimento com o caso. Essas alternativas não são necessariamente mutuamente excludentes. Evidentemente, não estou me lembrando de fontes acadêmicas confiáveis sobre o problema e, portanto, os leitores podem comentar.

Um dos comentadores do post anterior deu o exemplo da pedofilia como um caso em que, mesmo não nos envolvendo direta ou indiretamente, podemos achá-lo revoltante em termos morais, inclusive expressando sentimentos de extrema ojeriza contra esse ato vil.

Acredito que meu post anterior deva-se à diferença de sentimentos morais que existem entre a revolta moral tipo (a) e tipo (b) ou (c). Uma pessoa que passa por uma determinada situação tem uma visão diferente de outra que apenas ouviu falar da situação. Essa diferença é captada claramente por Adam Smith, em sua Teoria dos Sentimentos Morais (1759), [edição de 2009 com introdução de Amartya Sen]:

But if you have no fellow-feeling for the misfortunes I have met with, or none that bears any proportion to the grief which distracts me; or if you have either no indignation at the injuries I have suffered, or non that bears any proportion to the resentment which transports me, we can no longer converse upon these subjects. We become intolerable to one another. I can neither support your company, nor you mine. You are confounded at my violence and passion, and I am enraged at your cold insensibility and want of feeling. (p. 27).

É possível entender porque o filósofo moral Adam Smith considerava esse o seu livro mais importante, ao invés de "A Riqueza das Nações".

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Sobre a nota do PCdoB

Permitam-me sair das questões mais técnicas no dia de hoje. Acredito que alguns esclarecimentos precisam ser feitos acerca do post anterior, principalmente no que diz respeito à Coreia do Norte. 

Muitos amigos, ao verem a carta do PCdoB, concordaram comigo que a mensagem do partido foi estúpida e anacrônica, além de imprudente do ponto de vista eleitoral (a Manoela d'Ávila provavelmente sofrerá com isso nas próximas eleições). Nas redes sociais, vi declarações de todo o tipo: tanto de repúdio ao ditador morto quanto de elogios à carta do PCdoB. 

Pasmem que ambos os posicionamentos me exasperam. Não porque eu seria partidário do "politicamente correto", como acusou-me meu estimado colega Diego Rodrigues. Espero ser mais claro dessa vez.

1. Ser favorável a carta do PCdoB é indignante. Certo amigo meu disse que a carta tinha sido "uma manifestação ideológica do PCdoB". Até aí concordo. O amigo em questão afirmou que isso era "legal". Mas não sei o que tem de bom nisso. A defesa de uma ideologia por um princípio, ignorando todas as suas consequências, é moralmente questionável até em situações bem mais inocentes que essa. Na situação em questão, temos um regime totalitário e considerado talvez o mais fechado do mundo, em que presidentes são tratados como ídolos e que desde a década de 1950 impede que meu pai veja ou ao menos saiba alguma coisa sobre a existência de familiares seus. Tal regime não me parece defensável sob qualquer ponto de vista. Embora meu último argumento tenha sido do ponto de vista pessoal, essa história certamente se repete em muitas famílias coreanas. As marcas do regime e da guerra perduram nas relações pessoais e familiares. A dureza com que pessoas como os norte-coreanos encaram a vida depois do que sofreram é perceptível mesmo para quem não esteve lá como eu. Dizer que "há países capitalistas muito piores" e que tudo não passa de "uma briga da mídia com comunistas" é uma afirmação ignorante por dois motivos: (a) porque provavelmente está errado: a Coreia do Norte não apenas é extremamente pobre, tendo passado por um surto de fome na década de 1990, como também tem uma elite abastada e liberdades políticas extremamente restringidas e (b) porque por mais que países aliados aos EUA e com governos bastante autoritários, como a Arábia Saudita, não sejam atacados pela mídia, é difícil afirmar que seja pior que a Coreia do Norte. E mesmo que seja, não sei como o erro de países capitalistas tirânicos justifica a carta do PCdoB em apoio ao regime mais autocrático atualmente existente. 

2. Por outro lado, sentimentos de "nojo" e "horror" ou desejar que o Kim Jong-Il "vá para o inferno" não me parece uma atitude razoável para brasileiros de classe média alta ou alta que não tem qualquer envolvimento emocional com a Coreia do Norte. Todos nós podemos achar muito errado a ditadura norte-coreana. Talvez se você tiver um parente que sofreu com a ditadura militar brasileira ou qualquer outra possa realmente se revoltar um pouco com a tirania norte-coreana, ou ainda se você é uma pessoa muito sensível e consegue empaticamente colocar-se no lugar de um cidadão norte-coreano. Se não é o caso, acho que manifestar que você é contrário ao regime norte-coreano é mais do que legítimo, é até necessário e eu inclusive agradeço por isso. Mas não vejo motivo para essas pessoas odiarem o Kim Jong-Il ou terem "nojo" dele. Acho que meu pai e outros tantos coreanos que nunca mais viram seus familiares podem falar em "nojo" e "ódio" do Kim Jong-Il e do regime norte-coreano - isso é outro patamar de crítica.  O resto me parece balbúrdia ideológica, quase no nível de uma carta do PCdoB em apoio ao regime.  

Não se trata de ser ou não "politicamente correto". Quanto à Coreia do Norte, quais são seus reais sentimentos para que se revolte a ponto de desejar o inferno pro Kim Jong-Il? Eu tenho os meus motivos. Se você tiver seus motivos (que sejam parentesco, identificação cultural, direitos humanos, empatia, etc.), está tudo bem. Mas acho que a maioria que fala por aí não tem e trata o caso como se fosse um time de futebol. Entendo que minha opinião possa estar errada, mas acho que os leitores entenderão que esse é um assunto sensível para descendentes de coreanos. [parágrafo reescrito em 24/12, 18h46min].

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Comunistices

  • Tenho assistido com certa ojeriza as declarações raivosas mandando Kim Jong-Il para o inferno. Não  sou comunista obviamente. Mas quem quer mandar uma pessoa para o inferno por ódio ideológico iguala-se a um ditador. Pessoas que não tem em seu círculo próximo pessoas que sofreram com o totalitarismo talvez devessem pensar antes de fazer declarações de ódio a um ditador. Deixem isso para quem viveu com o comunismo. Melhor argumentar racionalmente.
  • Tenho estudado recentemente as políticas econômicas cubanas e o processo de mudança institucional ocorrido com a Revolução de 1959. A equipe de Castro acabou com a burocracia e mandou a maioria dos técnicos embora do governo, na tentativa de comandar um país como se fosse uma guerrilha. Obviamente não deu certo, mas também não deu certo com o planejamento central estilo stalinista, aplicado posteriormente. E também os problemas econômicas de Cuba nos anos iniciais não podem ser creditados ao embargo, uma vez que as compras soviéticas de açúcar mais do que compensaram as perdas do embargo. Talvez o problema mesmo tenha sido o fim dos mecanismos de mercado. Apesar da redução da desigualdade e da extensão dos serviços sociais, o tradeoff eficiência x equidade esquecido pode ser um problema para o crescimento sustentável no longo prazo. 
  • ATUALIZAÇÃO:  PCdoB se solidariza com o povo coreano pela morte de Kim Jong-Il. É inacreditável.
  • ATUALIZAÇÃO: Lembrei agora do Peter Lindert e seu Free Lunch Puzzle. Pode ser que políticas sociais sejam pró-crescimento. Mas daí o debate é longo...

sábado, 17 de dezembro de 2011

Escola de Verão (de novo)


Anunciando aqui que a FEA/USP divulgou o resultado da Escola de Verão em Desenvolvimento. Seguramente, um dos maiores cursos de verão existentes por aí - é só ver o número de selecionados. Se há gente que acompanha esse blog e estará lá presente, pode comentar aí embaixo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Dois assuntos: "Occupy Wall Street" e Aprendizado Infantil

1. Talvez Dani Rodrik tenha dito a coisa mais sensata nos últimos dias sobre o movimento protagonizado por estudantes de Harvard na disciplina de Introdução à Economia ministrada por Greg Mankiw. O próprio Mankiw tem falado o que pensa, mas acho que Rodrik capturou muito bem o ponto aqui.

2. O outro link importante da semana foi fornecido pelo Prof. Sabino da UFRGS, divulgando um documento sobre Aprendizado Infantil publicado pela Academia Brasileira de Ciências. Sem dúvidas, um recurso fundamental para políticas públicas no futuro de nosso país.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Dois posts por semana

A irregularidade deste blog tem prejudicado os leitores. Então vamos dar um jeito nisso e tentar atualizá-lo duas vezes por semanas: terças e sextas em geral.

Para compensar a falta de posts, indico uma leitura interessante e curta sobre o perfil de Amartya Sen. Para quem gosta de seus trabalhos, foi uma interessante leitura que revela os motivos pelos quais a pesquisa de Sen tomou os caminhos que tomou.