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terça-feira, 31 de agosto de 2010

Prebisch e Singer revisitados

Ainda pesquisando globalização em perspectiva histórica, continuo postando a respeito. Em post anterior em junho, falei rapidamente dos trabalhos de Hadass e Williamson (2001) revisitando a deterioração dos termos de intercâmbio dos países periféricos, como defendido pioneiramente por Prebisch e Singer em meados do século XX.

Resumidamente, como colocado pelo resumo da literatura feito por Lindert e Williamson (2003), não foi o que aconteceu. Não apenas os termos de troca da periferia melhoraram até a I Guerra, como melhoraram muito mais do que em relação à Europa. As estimativas falam em aumento de 2% para a Europa, 10% para o Leste Asiático e de 21% para o resto do Terceiro Mundo!

Falseada a tese Prebisch-Singer, isso significa que a globalização favoreceu a periferia? Não necessariamente por duas razões. No curto prazo, se o setor exportador do país não é tão grande, os efeitos em termos de PIB não serão tão grandes também. Uma segunda razão é de longo prazo: choques positivos nos termos de troca podem reforçar as vantagens comparativas da periferia (geralmente agrícolas) e causar desindustrialização. Se considerarmos que a principal fonte de mudanças tecnológicas e aprofundamento do capital vêm do setor industrial, os termos de troca vantajosos podem ter efeitos negativos posteriores.

Sobre isso, ver páginas 234 e 235 desse artigo de Lindert e Williamson.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Apresentação via Skype

Às 4 da manhã do domingo, tive que ligar meu computador a fim de apresentar um paper para um workshop sobre "Capital Humano na História Econômica" que estava sendo realizado na Universidade de Tuebingen, Alemanha. Sem verbas para levar um brasileiro para o evento, a organização optou por uma apresentação via Skype.

Pensei que eles poderiam me ver, assim como também eu ver a plateia. Mas problemas técnicos impediram isso. Comecei então a apresentação depois que o Prof. Jörg Baten explicou quem eu era. Foi uma sensação bem ruim. Não saber quem era minha plateia, não ver reações do público, nem mesmo ouvi-las (apenas um outro barulho) são coisas bastante desagradáveis para quem está falando. Sozinho no meu quarto e ouvindo minha própria voz, me perdi algumas vezes na curta apresentação que deve ter durado uns 20 minutos.

Pelo menos, recebi alguns comentários interessantes de pesquisadores do tema. No final, acho que valeu a pena o sacrifício do sono...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

IDH de 1970 a 2007

Gustav Ranis (Yale) e Francis Stewart (Oxford) mostram que México, Chile e Panamá foram os países de "alto IDH" que apresentaram maior evolução desde 1970. Ainda acho que classificar países como o Brasil como tendo "alto IDH" é um erro. Mas pelo menos o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é um índice mais completo para mensuração de bem-estar, apesar de todas as suas limitações em relação à agregação.

Confirmando as expectativas, casos de sucesso de crescimento do IDH em geral combinam crescimento econômico com políticas de redistribuição de renda e mudanças institucionais.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

Justiça e pessoas com deficiência


Nessa semana, estamos na Semana Nacional da Pessoa com Deficiência. Confesso que achei difícil encontrar qualquer coisa a respeito, tirando em sites de órgãos como a APAE. Fiquei sabendo disso pelo site de minha própria igreja na verdade. Infelizmente, isso é pouco divulgado.

Muitos acham que política ou economia não tem muito a ver com isso. Mas quando lidamos com questões de justiça, é importante considerarmos as pessoas com deficiência. Essas pessoas geralmente precisam de mais renda e de mais facilidades do que as outras a fim de que tenham uma vida de razoável conforto. É a partir dessa constatação, de que nem todas as pessoas têm a mesma capacidade para converter renda em bem-estar, que Amartya Sen critica visões que se baseiam na igualdade de renda como objetivo maior (sem contar todos os problemas de incentivos). Mesmo que não houvesse problemas de incentivos, tal objetivo ainda seria eticamente questionável. Pensemos não apenas nas pessoas com deficiência, mas também em quem têm doenças crônicas.

Uma outra visão interessante é a de John Rawls, que na verdade é anterior e provavelmente inspira Sen. Rawls trata as habilidades e problemas como a deficiência de uma maneira interessante. Ele compara a distribuição desses como resultado de uma espécie de loteria da vida. Ninguém mereceu nascer com deficiência, tampouco com tendências a desenvolver doenças crônicas. É a partir daí que Rawls vai construir o chamado véu da ignorância (se não sabes o que é, google it: "veil of ignorance"), famoso artifício de seu livro "Uma Teoria de Justiça". (Pelo menos, essa é uma aplicação possível de seus escritos. Não encontrei explicitado o caso da deficiência).

Na prática, isso pede por alguma intervenção do Estado para garantir que a sociedade tente compensar um pouco as desvantagens que pessoas com deficiência acabam tendo. É uma maneira de justificar vagas para concurso reservadas, lugares especiais nos ônibus (o que o mercado certamente não resolveria, uma vez que o mercado é muito bom para a eficiência, mas não para esses fins), e outras coisas mais.



terça-feira, 17 de agosto de 2010

WEHC 2012 - Primeira chamada!

A primeira chamada para propostas de sessões a serem realizadas no XVIth World Economic History Congress está no ar desde novembro, mas a data-limite para essa primeira rodada de propostas é dia 1º de setembro. Quem quiser ver detalhes a respeito da chamada para sessões, clique aqui! O evento será realizado no ano de 2012 em Stellenbosch, África do Sul - local onde se produzem vinhos. É um evento promissor, pelo menos a partir da minha experiência no último congresso realizado em Utrecht no ano passado.

sábado, 14 de agosto de 2010

Educação para quê?

Quando se fala em educação no Brasil, as pessoas em geral pensam na questão da cidadania e da participação política. Educar o povo é alavancar a cidadania. Apenas em departamentos de Economia de universidades se pensa diferente - e apenas às vezes, pois há alguns que ignoram a literatura sobre capital humano (a questão aqui não é se a nomenclatura "capital humano" é correta, mas as consequências econômicas da educação que essa linha de pesquisa investiga).

Estive conversando com um amigo que fez doutorado na Alemanha. Ele percebeu que lá, quando se fala em educação, eles estão pensando em crescimento econômico. Mais do que cidadania, é o crescimento que fica em evidência.

É verdade que não é só o crescimento que importa - principalmente para mim, um ávido leitor de Amartya Sen. É verdade que cidadania é fundamental, a fim de que todos conheçam seus direitos e cobrem por eles. Por outro lado, o discurso do crescimento é politicamente muito mais interessante. O rico não se beneficia da participação política do pobre, mas se beneficia do crescimento econômico.

E educação é benéfica para o crescimento. Não que seja a panacéia ou a única solução. As políticas macroeconômicas e de desenvolvimento tecnológico são fundamentais. Mas precisaremos também de trabalhadores qualificados.

domingo, 8 de agosto de 2010

O teólogo Bonhoeffer e sistemas econômicos


Dietrich Bonhoeffer foi um brilhante teólogo luterano que foi morto pelo regime nazista. Assim como alguns outros teólogos, ele se posicionou contrariamente ao nazismo e à Igreja Evangélica Alemã da época que era pró-governo. Seus escritos na prisão são fonte de inspiração para muita gente. Estive relendo seu livro inacabado sobre ética. Achei uma parte sobre a opinião da igreja em assuntos econômicos. Vale a pena ser lido:

"É de se perguntar, por exemplo, se o capitalismo, o socialismo ou o coletivismo, são estruturas econômicas que atrapalham a fé. Para a Igreja, aqui há uma postura dupla: por um lado, numa delimitação negativa, terá que declarar nefastas as mentalidades e sistemas econômicos que manifestamente dificultam a fé em Jesus Cristo. Por outro lado, só poderá dar colaboração positiva para uma reestruturação baseada na autoridade do conselho responsável de especialistas cristãos, não com a autoridade da Palavra de Deus. Ambas as tarefas devem ser rigorosamente distinguidas. A primeira é do ministério, a segunda a da diaconia, a primeira é divina, a segunda terrena, a primeira é a da palavra de Deus, a segunda é a da vida cristã. Aqui vale, no entanto:doctrina est coelum, vita est terra (Lutero)". (p. 201).

Acho que Bonhoeffer está certo. Creio que em nossas sugestões, devemos saber da limitação do que estamos sugerindo - que não é palavra de Deus, mas uma tentativa de emitir opiniões baseadas na ética cristã. Por outro lado, acho possível declararmos nefastos todos esses sistemas em algum aspecto, pois todos eles radicalizados adquirem certo caráter divino ou impedem-nos de ver o próximo. O capitalismo leva-nos à idolatria do dinheiro e do consumo, o socialismo idolatra o Estado e geralmente dependeu do totalitarismo para ser implantado. Mas defender um sistema fica difícil, na medida em que não há nada claro do que seria um sistema correto do ponto de vista bíblico.


domingo, 1 de agosto de 2010

Fair trade?

Alguns leitores do blog me mandaram e-mail recentemente com perguntas. Prometo responder assim que puder.

***

Com a missão de escrever algo sobre fé e globalização, tenho me deparado com algumas coisas acerca de Fair Trade. Já tinha ouvido falar desse movimento, cujo objetivo é que certos padrões éticos sejam levados em conta no comércio, garantindo preços razoáveis e direitos humanos para todos os envolvidos no comércio.

Para os que acreditam que sempre o mercado é o melhor alocador de recursos, tal sugestão não faz sentido. Novamente, lembro que se consideramos questões distributivas, é possível que o mercado não chegue a soluções desejadas. Dessa forma, embora o mercado alcance resultados muito eficientes, o agricultor do país subdesenvolvido (principal alvo do movimento de Fair Trade) poderia possivelmente receber pouco pelo seu café, não conseguindo dar condições de vida "decentes" a seus familiares. Para "corrigir" isso, dado que damos importância a questões distributivas, necessitamos de algum tipo de intervenção.

A proposta do Fair Trade parece mais uma tentativa de conscientização, com a abertura de lojas que garantem a procedência dos produtos - que imagino serem um pouco mais caros, mas que garantem ao consumidor que são ecológicos e que respeitam o agricultor do país pobre.

Não sei mais nada a respeito. E preciso saber. E sei também que muitos já vão fazer uma cara horrível para esse tipo de movimento.

O que está em questão é que, se há consumidores que preferem pagar mais caro (que serão poucos) por isso, essas lojas podem ser abertas. O que não deve funcionar na prática é um sistema econômico inteiro baseado na suposição de que as pessoas levarão em consideração direitos humanos e tal. Mas certamente iniciativas como essa podem ter mercado e funcionar, uma vez que algumas pessoas na Europa tem aderido a esse movimento - tanto é que existem essas lojas. Pelo menos é minha posição inicial sobre o assunto.

Se alguém sabe mais a respeito, pode me mandar material. De resto, vou explorar um pouco o site do Fair Trade e ver quais são as possibilidades e limitações desse tipo de iniciativa.