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domingo, 29 de novembro de 2009

Manifestações politicamente incorretas (2)

O título pode até ser um pouco injusto. Naquela época, não era politicamente incorreto dizer isso. Mas hoje em dia, esses termos não seriam bem recebidos. Na Estatística de Instrução de 1916, vemos a seguinte declaração:

Ao passo que os poderes publicos assim proviam a instrucção superior e a esthetica, não descuravam tambem o ensino excepcional, destinado a individuos anormaes. (p. XXXV)

Conheço muita gente que se encaixa no que hoje considero anormal.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Crise econômica e teologia da prosperidade

Agradeço ao DeGustibus pelo link de uma reportagem sobre uma possível ligação entre a teologia da prosperidade (coisa a que tenho verdadeiro horror) e a atual crise econômica originida dos subprimes no mercado imobiliário norte-americano. A reportagem pode ser diretamente encontrada clicando aqui.

Sempre lembrando como Deus sempre se coloca ao lado dos mais pobres em diversas passagens da Bíblia, desde os profetas denunciando injustiças até o posicionamento claro de Jesus sobre o tema, inclusive falando do "perigo das riquezas".

terça-feira, 24 de novembro de 2009

DeLong na UFRGS

Em comemoração aos 100 anos da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS, tivemos a presença de J. Bradford deLong aqui na UFRGS, professor do Departamento de Economia da University of California at Berkeley. DeLong é proeminente no debate sobre a atual crise econômica, propondo, a exemplo de Paul Krugman, maior intervenção e regulação governamentais para solucioná-la.

O interessante de DeLong é sua produção na área de história macroeconômica. Em sua exposição, DeLong explicou do caso que levou o Banco da Inglaterra a ser um emprestador de última instância com a iminente ameaça de falência de um importante banco em 1823. Mas além disso, mostrou as diferenças entre a Era Greenspan e as crises econômicas do passado, mostrando que as recuperações eram mais rápidas antes (pelo menos foi o que eu entendi após passar o dia inteiro estudando em um café).

Momento interessante da palestra foi ver o professor Ferrari da UFRGS cobrar menção sobre Minsky (aproveitando para identificar-se como pós-keynesiano). DeLong respondeu que preferia a abordagem histórica de Kindleberger acerca de crises e que Minsky lhe dava sono, mas afirmou que ambos têm pontos em comum na interpretação da atual crise.

Mas não houve nada de realmente novo na palestra. Como foi de graça, valeu a pena. Talvez nosso ex-colega Tarso, estudante de Berkeley que provavelmente vai assistir as aulas de história econômica com DeLong, possa nos dizer algo mais em alguns meses.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Manifestações politicamente incorretas no século XIX

Uma proposta em 1823 relativa à criação de uma universidade em São Paulo agitava os políticos. Um dos debates era a localização. O deputado José da Silva Lisboa defendia a localização da universidade no Rio de Janeiro porque:

"é reconhecido que o dialeto de São Paulo é o mais notável; a mocidade brasileira fazendo ali seus estudos contrairia pronúncia mui desagradável"

Reclamou, com razão, o deputado Pedro José da Costa Barros, do Ceará, que mal havia professores para primeiras letras e já estava se pensando em criar uma universidade. Provavelmente foi ignorado.

Mas depois surgiu uma proposta de criação também de uma faculdade na Bahia. Ao que objetou o deputado Antonio Carlos de Andrade Machado, paulista, acerca da Bahia como sede, uma vez que a Bahia seria:

"a segunda babilônia do Brasil; [onde] as distrações são infinitas e também o caminho da corrução. É uma cloaca de vícios..."

Bons tempos em que as pessoas eram politicamente corretas [ironia]. E eu tentando estudar financiamento da educação na história...


Fonte: Moacyr, P (1936) "A Instrução e o Império" apud Melchior, J. C. A. (1981) "A política de vinculação de recursos públicos e o financiamento da educação no Brasil", p. 28-30 nota.

Planos para 2012?

Apesar das previsões apocalípticas do calendário maia, quem tiver planos para uma sessão no World Economic History Congresss 2012 em Stellenbosch, África do Sul, já pode fazer sua proposta aqui.

domingo, 8 de novembro de 2009

Ética e história perdidas no pensamento econômico

Embora Jevons e Marshall tenham difundido com sucesso o uso do cálculo diferencial na economia, isso não significou que não tenham havido discussões sobre a questão da história e da ética e sua relação com a economia na Inglaterra.

Backhouse, em seu Penguin History of Economics, menciona economistas como Thomas Leslie (1827-1982), que, influenciado pela Escola Histórica Alemã, propôs métodos mais indutivos, aparentemente com o mesmo excesso dos germânicos. Mas pelo menos, foi um inglês que reconheceu a importância das instituições (assim como os velhos históricos alemães como List e mesmo Adam Smith já reconhecia).

Mas mais importante que ele foi Arnold Tonybee (1852-1883), que morreu com apenas 31 anos. Baseado em Oxford, rejeitava que a ética permanecesse separada da economia (principalmente em questões distributivas) e afirmou a autonomia da história econômica e social de outras formas de história. Ficou conhecido por ter popularizado o termo "Revolução Industrial".

Outro que acabamos não ouvindo falar muito em nossos cursos de HPE é John Bates Clark. O norte-americano é conhecido por ser o nome da medalha concedida a jovens economistas promissores (com menos de 40 anos). Também advogou a importância da ética, embora tenha proposto, como Jevons e Menger, uma teoria de utilidade marginal, álém de ter defendido o uso de análises estáticas. Muito próximo da convergência que hoje vemos de teoria formal e instituições.

É bom sabermos que algumas idéias que novamente estão em voga como a análise institucional, não só na história (North) como também na firma (Oliver Williamson), já estavam presentes muito anteriormente. A ética (hoje com Amartya Sen e outros) também estava presente, paralelamente ao desenvolvimento dos modernos métodos matemáticos que viriam em seguida.

Mas no fundo, como Sen e outros reconhecem, já estava tudo em Adam Smith. Não é a toa que, como dizia o prof. Eugênio Lagemann nas minhas aulas de história econômica, o velho Adão é nosso pai.