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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Dèja-vú

Estava recentemente examinando a Estatistica de Instrucção de 1916. O documento contém um bom resumo do que tentou-se fazer pela educação até então. Uma das declarações mais interessantes é a de Dunshee de Abranches:
"E' convicção geral que não é possível permanecer por mais tempo a instrucção nacional no estado miserando a que se acha condemnada, atravez da indifferença dos governos que vão se succedendo na suprema administração do paiz [...]. A triste verdade é que as creanças sahem da escola primária abominando as lettras. Nos cursos secundarios só pensam os estudantes em acabar os alinhavados preparatorios, que lhes abram as portas das carreiras liberaes. Nas faculdades superiores, finalmente, de anno a anno, se vão tornando os diplomas acadêmicos os tropheós baratos da incompetencia laureada."(Exames geraes de preparatorios, pag 31 – apud Annexos ao Relatorio do Ministerio da Justiça e Negocios Interiores, de março de 1904)
Algo mudou?

sábado, 27 de dezembro de 2008

Consumo no Natal

Apesar da crise, o consumo do natal foi o maior dos últimos anos, segundo a Zero Hora de hoje, jornal de Porto Alegre. O varejo está comemorando as vendas. A previsão de crescimento do PIB para esse ano continua alta (maior do que 5%): a crise só deve bater ano que vem.

Lembro-me da época em que precisava estudar consumo. É importante tentarmos explicar o que acontece. Por um lado, os consumidores podem estar com a percepção de que a crise vindoura será passageira ou fraca, com pouca influência em suas rendas reais. Por outro lado, os consumidores podem não levar isso em conta (em um processo de auto-engano coletivo). Nesse último caso, teríamos uma função de consumo keynesiana tradicional. Talvez algum outro leitor desse blog tenha mais palpites. Faz tempo que eu não estudo essas coisas.

***

Na festa de Natal que juntamos quatro famílias, muitos presentes foram distribuídos. Se os presentes dados ali fossem os do agente representativo da economia, o povo do comércio estaria também bem feliz. Em um momento, entretanto, lembramos do verdadeiro motivo das festas, geralmente perdido em meio ao reencontro familiar e aos infindáveis presentes. Como dizia Lutero:

"Creiam que Cristo nasceu para vocês e que o nascimento aconteceu para o bem de vocês. Pois a Escritura Sagrada não afirma apenas: Cristo nasceu, mas diz: nasceu para vocês. Também não afirma apenas: eu anuncio uma alegria, mas diz: eu anuncio uma alegria para vocês. Creiam que Cristo nasceu para vocês".

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Relembrando filosofia da ciência

Há tempos não lia sobre um assunto que sempre me interessou bastante, desde a disciplina de Metodologia da Ciência que fiz na graduação: filosofia das ciências sociais. Qualquer ciência tem o dever de pensar sobre si mesma, o que não significa que não devamos fazer coisa alguma enquanto não chegamos a uma conclusão. Mas refletir um pouco é importante.

O grupo de estudo de história econômica que montamos lá na FEA-USP de repente resolveu estudar um pouco de filosofia. Nada mal. Lemos um capítulo de um livro de Martin Hollis chamado "Philosophy of Social Sciences: an introduction". Sucintamente, Hollis faz um apanhado geral sobre as idéias de Popper, Quine e Kuhn. Embora introdutório, o texto não é a coisa mais simples do mundo para quem não está acostumado. Mas parece ser bem legal e deu vontade de lê-lo inteiro.

O assunto é fascinante. Mas sempre que leio sobre isso, a impressão que fica é a de que nem mesmo quem passa o dia pensando nisso sabe se os fundamentos de nossa ciência são seguros ou não. Não há resposta confiável para perguntas como "deve-se empregar um mesmo método tanto para o estudo das ciências naturais quanto às sociais?". Ou ainda, nunca sabemos responder se a ciência está progredindo (como ainda sustentava Popper). A tentação da queda no relativismo total é muito grande. E é mais ou menos isso que está na moda hoje em dia, não apenas em filosofia da ciência.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Escandinavos e o conflito Igreja-Estado

É curioso passar pelos países escandinavos, considerados muito progressistas, e ver a relação simbiótica que suas igrejas nacionais mantêm com o Estado. O conflito Igreja vs. Estado é um conflito antigo. Detectamo-lo, por exemplo, nas diversas disputas acerca da educação: se ela deveria ser pública e laica, ou se deveria ser mantido pela iniciativa privada, principalmente a Igreja.

Não interessa muito que igreja. O conflito pode ser visto tanto em países de maioria católica como o Brasil, como também ocorreu em países como Estados Unidos e Inglaterra. Não é preciso falar de França e outros países, onde essa guerra foi forte.

Acontece que na Suécia, a Igreja da Suécia separou-se em 2000 do Estado. A Igreja da Noruega ainda é parte do Estado. Perguntei como era possível que os escandinavos fossem tolerantes e progressistas para muitas pessoas do alto escalão da Igreja da Noruega (que assim como a Igreja da Suécia é evangélica-luterana). No fim, eles não conseguiram me explicar direito. A tolerância leva necessariamente a uma perda de poder da igreja, embora tolerância seja desejável. Ao mesmo tempo, pode ser um fruto positivo de algo que tem muitas desvantagens: a secularização da própria igreja e da sociedade em geral.

Enquanto isso, suas economias são sólidas e apresentam os mais altos índices de desenvolvimento humano. A Suécia tem importantes setores industriais, enquanto a Noruega, que era um pouco mais pobre e dependente da pesca, teve a sorte de encontrar petróleo. Só que o petróleo norueugês é taxado em cerca de 70% se não me engano, que são redistribuídos. Excesso de intervenção do Estado? No Brasil eu sei que seria complicado, mas lá parece funcionar e poucos reclamam...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Impressões sobre alguns países

Os limites da ação estatal são sempre um tema polêmico, principalmente quando observamos o alto padrão de vida alcançado por grande parte da população nos estados de bem-estar social europeus. É patente que os países que visitei essa semana (Noruega, Suécia e Alemanha) conseguiram, às expensas de alta carga tributária e esquemas redistributivos, resultados bastante significativos.

Diferentemente do Brasil, a alta carga tributária de fato financia a saúde e a educação da população desses países. A intervenção na economia chega a níveis curiosos: à exceção da cerveja, que não é nem considerado bebida alcóolica na prática, a venda das demais bebidas alcoólicas nos países escandinavos é monopólio estatal. Entrei semana passada em um shopping ao lado da estação de trem em Oslo e lá estava o tal do "Vinmonoplet". Essa loja não tinha preocupação alguma com sua imagem, logomarca ou coisa parecida. Obviamente, apresentava uma grande quantidade absurda de bebidas alcoólicas expostas. (Detalhe: no mesmo shopping, havia uma loja muito legal que tinha tudo que é camisa de futebol do mundo, mas isso não tem nada a ver com o resto do post).

Esquemas de compensação social que lembram muito as idéias de justiça de Rawls ou Sen são muito freqüentes. Pessoas com deficiência recebem ajuda do Estado: uma espécie de compensação por terem tirado os números errados na "loteria genética". Casais que têm mais filhos na Alemanha pagam bem menos impostos para o governo, a fim de incentivar maior natalidade. Uma série de intervenções são aceitas pela população em geral por garantir bem-estar mínimo.

Talvez nossos leitores libertários não se sintam à vontade com tais intervenções. Mas são escolhas feitas por esses sistemas políticos, muito melhores do que o brasileiro. Os europeus reclamam de coisas que nos parecem pouco importantes, mas quem me dera poder reclamar do que eles reclamam.