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sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Os estranhos marxistas analíticos

Na disciplina de Teorias de Justiça, que curso no Departamento de Ciência Política, preciso entregar um trabalho sobre um dos tópicos trabalhados em sala durante o semestre. Disse ao professor que puxaria para a Economia, tendo como resposta a indicação de um livro chamado "Theories of Distributive Justice" de um economista. John Roemer (1996) formalizou elegantemente nesse livro as principais teorias de justiça. Mais do que isso, ele era conhecido por ser um "marxista analítico", os caras que juntam Marx e filosofia analítica (como me corrigiu o Drumond - vide comentários).

Só vim a entender um pouco de como Roemer pensa ao ler essa passagem da introdução:

I do not deal with the theory of exploitation because [...] after studying it for some time, I came to believe that it is not in itself a fundamental theory of (in)justice. I do not mean that workers are justly treated under capitalism, but rather that the view that what's unjust about their treatment is exploitation needs further articulation. For, according to Marx, or at least to my interpretation of his view, the exploitation of the worker is entailed by his receiving wage goods which embody less labor than the labor he expended for that pay. Now the unequal exchange of "embodied labor" in goods for "direct labor" in production is by no means obviously unjust. Indeed, if the capitalist is the rightful owner of the factory, then why cannot we view the "surplus labor"[...] as a rent the worker pays for access to that factory, for access, that is, to what he needs to render his labor fruitful? Thus the existence of surplus value, or unequal labor exchange in the above sense, is not sufficient to ground the claim that the worker is unjustly treated. I think that some egalitarian theory, of the Rawls-Sen-Dworkin-Arneson-Cohen variety, is needed to justify the Marxian accusation that workers are unjustly treated under capitalism. It may be unjust, for example, for any small group to own a factory, if, in a market economy, that makes the equalization of opportunities impossible. Or the method by which the capitalist came to acquire the factory may have been unjust. In either case, we need a deeper theory. (Roemer, 1996, p. 9).


Que coisa, não? Só falta o Marx pra esse marxista pelo jeito. Um marxista que gosta de teorias liberais de justiça.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

McCloskey e a significância estatística

A professora Deirdre McCloskey, da University of Illinois at Chicago, famosa por seus artigos sobre metodologia (retórica) e por ter passado por uma cirurgia de mudança de sexo, ministrou uma palestra hoje na Sala da Congregação da FEA-USP. O recinto estava bem cheio e McCloskey fez suas polêmicas declarações.

O tema era o seu novo livro, a ser lançado em janeiro, chamado "The Myth of the Statistical Significance". Bastante polêmico. Para ela, não há motivos para a economia usar a significância estatística. Sua idéia gerou enorme polêmica durante e após a palestra. Em suma, ela acha que o critério de decisão usados em testes de hipóteses (como t ou F) não devem ser automáticos e objetivos. Para ela, são critérios de valor que devem pesar e que os progressos da ciência ocorridos através desses testes foram sorte. O que importa é o ângulo, o coeficiente, e não testar a existência desse coeficiente da forma como é feito hoje. Evidentemente, ela argumenta melhor e o livro deve ser mais profundo a respeito disso. Para mim, a proposição dela é muito estranha.

Algumas declarações dela na palestra foram no mínimo exóticas, como por exemplo "when I was a man..." e, simulando alguém comentando sobre ela, "that stupid, transsexual, crazy person". Além disso, arrancou várias risadas do público ao longo da palestra. Foi divertido, embora bizarro e polêmico.

sábado, 24 de novembro de 2007

Congresso Missionário Ecumênico e algumas constatações

O CONIC, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, comemorou seus 25 anos de fundação realizando seu I Congresso Missionário Ecumênico no fim de semana passado. Nesse evento, assinou-se o reconhecimento mútuo dos batismos entre as igrejas-membro.

Foi um evento interessante, em que predominaram palestrantes de tendência liberal ou da teologia da libertação. Não obstante, houve um preletor da IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) - igreja contrária ao ecumenismo - que advogou a abordagem da missão integral, defendida pelo movimento evangelical (os do chamado Consenso de Lausanne, 1974). De resto, a liderança das igrejas históricas mostrou ser claramente mais liberal. Isso não é uma crítica, é uma constatação.

Claramente, pude ver no evento o mesmo que ocorre dentro do movimento evangelical: há um certo "ecumenismo" entre os iguais. Hoje, as principais diferenças entre as igrejas não se referem a denominações. Anglicanos liberais e luteranos liberais são muito mais parecidos do que anglicanos liberais e anglicanos evangelicais. Na maior parte das denominações, o conflito maior é interno. Tanto entre liberais quanto entre evangelicais, o que menos importa é a denominação. No nosso ecumenismo, ainda há um longo caminho a ser andado. Enquanto as correntes não se abrirem para aceitarem as outras correntes teológicas cristãs, estaremos muito aquém do objetivo maior do ecumenismo: união e testemunho conjunto entre as igrejas.

Os passos são dados aos poucos. Graças a Deus, o Conselho Mundial de Igrejas tem caminhado na direção disso, através da organização do Fórum Cristão Mundial ocorrido no Quênia há algumas semanas. Esse evento contou com a maciça participação de pentecostais e evangelicais. Uma grande vitória para que as pessoas entendam que todos lá crêem em Cristo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Brasil, Uruguai e Argentina: convergência e estrutura produtiva

O seminário de história econômica ocorrido hoje contou com a participação do Prof. Dr. Gabriel Porcile (UFPR). Seu texto, em parceria com Luís Bértola, chama-se "Convergence, Trade and Industrial Policy: Argentina, Brazil and Uruguay in the international economy, 1900-1980".

Foi um bom ensaio de história comparativa utilizando o modelo de crescimento com restrição externa de Thirwall (de tradição keynesiana, "demand-led") e o índice de estrutura de Krugman. O modelo de Thirwall e sua lei são desconhecidos para mim, que nada sei de pós-keynesianismo - sei apenas que esse modelo leva em consideração a influência das contas externas para o crescimento econômico. O índice de Krugman eu também desconhecia, mas pelo que entendi, trata-se de um índice que mensura a similaridade de estruturas produtivas: quanto menor seu valor, mais parecidas são as estruturas produtivas dos países em termos de participação percentual dos setores na economia.

Com esse arcabouço e tentando mostrar evidências, Porcile concluiu que, embora muito longe do ideal (leia-se, tigres asiáticos por exemplo), o Brasil ainda conseguiu, devido a mudanças estruturais promovidas, sustentar alguma trajetória de convergência com os países centrais, enquanto Argentina e Uruguai divergiram.

Embora Porcile tenha indicado um papel importante para a política industrial (ortodoxos, contenham-se) e para uma certa estabilidade política (esquerdistas, contenham-se), ficaram para mim mais dúvidas em relação às causas do crescimento. Instituições? Cultura? Política? Dotações? Conhecimento? Tudo junto misturado?

Coisas a serem pensadas. As dúvidas sempre permanecem quando nos deparamos com história econômica comparativa. Se ficaram curiosos, mais detalhes podem ser vistos clicando aqui para baixar o texto.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Os complexos de economistas e cientistas políticos

Em um livro já não tão novo, datado de 1970, Albert Hirschman, um dos representantes do “Development Economics”, escreve algo interessante e até curioso acerca dos colegas da ciência política. Isso ainda é bastante atual para o Brasil, onde a influência da ciência política norte-americana vem chegando aos poucos. Não significa que eu seja contra a ciência política formalizada, inclusive pretendo usá-la. Reconheço, no entanto, que em alguns pontos Hirschman tem razão:

[...] eu espero demonstrar aos cientistas políticos a utilidade dos conceitos econômicos e aos economistas, a utilidade dos conceitos políticos. Essa reciprocidade tem estado em falta nos recentes trabalhos interdisciplinares, porquanto os economistas têm afirmado que conceitos desenvolvidos com o propósito de analisar fenômenos de escassez e alocação de recursos podem ser usados com sucesso para explicar fenômenos políticos diversos como poder, democracia e nacionalismo. Eles têm, dessa forma, conseguido ocupar vastas porções da disciplina vizinha, enquanto os cientistas políticos – cujo complexo de inferioridade em relação ao ferramental do economista só se compara ao complexo do economista em relação ao físico – têm se mostrado ansiosos em ser colonizados e freqüentemente aliam-se ativamente aos invasores. Talvez caiba a um economista reacender os sentimentos de identidade e orgulho entre os nossos oprimidos colegas e dar-lhes alguma confiança de que seus conceitos não têm apenas grandeur, mas também rayonnement? Eu gosto de pensar que isso poderia ser um subproduto do presente ensaio. (Hirschman, 1970, p. 20, tradução minha).

Não me parece que os cientistas políticos tenham ouvido muito Hirschman, mas felizmente, a invasão dos economistas no campo da ciência política têm recentemente gerado o resultado oposto também desejado por Hirschman: aos poucos, a política entra na economia, que tradicionalmente ignorava relações de poder, através dos trabalhos da Nova Economia Institucional de Doug North (Washington), e mais recentemente com Daron Acemoglu (MIT) e James Robinson (Harvard), por exemplo. Um pequeno contra-ataque que vem apenas a enriquecer.


Hirschman, A. O. (1970). Exit, Voice and Loyalty: Responses to Decline in Firms, Organizations and States. Cambridge: Harvard University Press.

sábado, 17 de novembro de 2007

Instituições e educação - parte IV

Diego disse: A questão então é: se os gastos hoje com ensino superior são conseqüência do excesso de poder nas mãos das elites, não seria de se esperar que a "esquerda" se posicionasse contra isso? Eu não entendo... Mas me parece que o poder da elite talvez não seja a melhor explicação para o que acontece (ou então não a principal).

Continuo sustentando que a falta de voz dos mais pobres devido à desigualdade na distribuição de poder político tem papel fundamental. Diego assumiu que a esquerda representa de fato as camadas mais pobres. No Brasil, onde a esquerda defende o ensino superior público com unhas e dentes, a esquerda representa muito debilmente as camadas pobres na minha opinião (a direita menos ainda obviamente). O maior partido de esquerda brasileiro, o PT, representa muito mais a classe média do que os verdadeiramente pobres. Isso é evidente pelas próprias bandeiras que defendem. Afinal, qual é o interesse do pobre na universidade pública? Só haveria interesse do pobre na universidade do governo caso ele raciocinasse através da lógica do custo de oportunidade e, nesse caso, ele seria contra a universidade pública.

Thiago disse: [...] ninguém que deseja ganhar uma eleição vai correr o risco de desagradar a classe média (que é o estrato mais baixo que tem possibilidade de cursar uma universidade). A solução do discurso político (de esquerda e de direita) é pregar o aumento de recursos generalizado para a educação, beneficiando ensino básico e superior.
Realmente parece haver um jogo de poder, mas pode ser que ele esteja não apenas refletido em um possível egoísmo da elite. Talvez ele reflita o custo político de se adotar medidas que privilegiem um estrato educacional em detrimento de outro.

De fato, retirar recursos da universidade pública gera problemas eleitorais. É só pensarmos no “Teorema do Eleitor Mediano”. Contudo, o alto custo político de se adotar medidas que desfavoreçam a classe média reflete exatamente o desproporcional poder político dos estratos médio e alto em relação aos pobres. Isso é egoísmo da elite (e não podemos esperar outra coisa). Lembrando que desigualdade de recursos está fortemente correlacionado com desigualdade de poder político. O ideal é que todos sejam da elite, ou seja, que não haja elite política efetiva.

Richard disse: se educação primaria tem um alto retorno, porque os pais não investem na educação dos filhos? Ou seja, porque o próprio mercado não providencia esses investimentos?

É possível que o mercado pudesse diminuir um pouco o problema do mal-direcionado. No entanto, o governo pode resolver muitos problemas de ação coletiva e a evidência histórica mostra que o governo pode sim, desde que o poder político esteja distribuído mais igualitariamente, fazer os investimentos corretos. Vide Estados Unidos e Canadá (Engerman & Sokoloff, 2002; Mariscal & Sokoloff, 2000). Como diz Buchanan, bens públicos ou coletivos são sempre um problema.

Richard disse: Vale lembrar também que nada adianta investimento em educação por si só.

Pensando exclusivamente na alocação, tens toda razão. Não fossem os problemas de ação coletiva e a noção de igualdade de oportunidades, concordaria contigo. Mas além disso, temos o fato cabal de que educação não tem apenas valor instrumental no meu juízo de valor. E há cada vez mais um consenso de que a educação tem valor intrínseco – seria uma functioning para Sen e é o que está por trás da idéia de desenvolvimento humano.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Instituições e educação - parte III

Para entender do que estou falando aqui, é interessante ler essa entrevista com James Robinson e Gregory Clark. A dica do link é do blog do Leo Monastério. Não é sobre educação exatamente, mas eles falam a respeito. Afinal, o que importa? Cultura ou educação?

Na parte IV, responderei os comentários feitos em relação à parte II.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Instituições e educação - parte II

Dizer que a falha de certas sociedades em investir no nível de educação certo ser causado por "imperfect knowledge and understanding make up the subjetive models of actors" pode até ser uma das explicações, mas extremamente insuficiente. Não é por acaso que North, em livro posterior (North, 2005), acaba incluindo outra motivação:

Throughout history and in the present world economic growth has been episodic because either the players' intentions have not been societal well-being or the players' comprehension of the issues has been so imperfect that the consequences have deviated radically from intention (p. 3)

Com isso, é fácil entender porque em países como o Brasil, a educação superior foi a mais privilegiada. Não é necessário usar a idéia de racionalidade limitada para chegar a essa conclusão: se o poder da elite é grande demais, as intenções deles prevalecerão e, apenas por um acaso, coincidirão com o bem-estar social.

É por esse motivo que Acemoglu, Johnson e Robinson (2004) usam a visão de conflito social para a explicar o papel das instituições no crescimento econômico. Segundo eles, a distribuição de poder politico afeta diretamente as instituições. Na mesma linha e anteriormente, Engerman e Sokoloff (1997, 2002) já destacaram a importância da distribuição de poder político para determinar as instituições criadas e a oferta de alguns serviços básicos. Alfabetização em massa foi alcançada com antecedência muito maior em países cujo poder estava menos concentrado nas mãos de poucos. Os trabalhos seminais de Engerman e Sokoloff mencionam o caso da alfabetização en passant, mas Mariscal e Sokoloff (2000) descrevem detalhadamente como isso aconteceu nos Estados Unidos e no Canadá, contrastando com o que aconteceu em alguns países latino-americanos.


Bibliografia
  • Acemoglu, D.; Johnson, S.; Robinson, J. (2004). “Institutions as the Fundamental Cause of Long-Run Growth”. National Bureau of Economic Research - Working Paper No. 10481. Cambridge, MA: May 2004.
  • Engerman, S. e Sokoloff, K. (1997). “Factor Endowments, Institutions, and Differential Paths of Growth among New World Economies: a View from Economic Historians of the United States”. In Haber, S. How Latin America Fell Behind. Stanford: Stanford University Press, 1997, p. 260-304.
  • Engerman, S. e Sokoloff, K. (2002). “Factor Endowments, Inequality, and Paths of Development among New World Economies”. National Bureau of Economic Research - Working Paper No. 9259, October 2002.
  • Mariscal, E. e Sokoloff, K. (2000).“Schooling, Suffrage, and the Persistence of Inequality in the Americas, 1800-1945”. In Haber, S. Political Institutions and Economic Growth in Latin America: Essays in Policy, History, and Political Economy. Stanford, CA: Hoover Institution Press, 2000, p. 159-217.

  • North, D. (1990). Institutions, Institutional Change and Economic Performance. Cambridge: Cambridge University Press.

  • North, D. (2005). Understanding the Process of Economic Change. Princeton: Princeton University Press.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Instituições e educação - parte I

Com propriedade, afirmou Douglass North (1990, p. 80):

Throughout most history the institutional incentives to invest in productive knowledge have been largely absent, and even in Third World economies today the incentives are frequently misdirected. If Third World countries do invest in education, they frequently misdirect the investment into higher education, not primary education (which has a much higher social rate of return than does higher education in Third World countries).


A crítica é que, em um país subdesenvolvido, os retornos da educação são mais altos caso se invista em educação primária. A Coréia, por exemplo, expandiu maciçamente em todos os níveis de educação, mas evidentemente, espalhou-se em primeiro lugar o primário.

North, entretanto, na hora de explicar os motivos pelos quais as instituições dos países subdesenvolvidos têm esses problemas, afirma que:

But if the market was imperfect so that the private rates of return were so low as not to make such private investument worthwhile, then the correct investment (in primary education) could have been undertaken by public investment, assuming members of the society appreciated that there was a high social rate of return on such investment. But the fact that such public investment was not undertaken or was misdirected suggests not only high transaction costs resulting in imperfect markets, but also that imperfect knowledge and understanding make up the subjetive models of actors. (p. 80).


Será que essa justificativa faz sentido para entender o problema da educação em países como o Brasil?

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Apresentação do IPE-USP

Hoje foi o dia da pós-graduação da USP fazer a sua apresentação aos alunos bem colocados no exame nacional de admissão ao mestrado promovido pela ANPEC. Os 60 primeiros foram chamados e puderam ouvir muitos dos professores da casa, os quais compareceram em massa.

Aparentemente, a apresentação surpreendeu positivamente os candidatos. A presença de professores mais antigos e proeminentes da casa, como também dos professores do programa "Jovens Doutores", foi aparentemente bem recebida.

Só saberemos dos resultados a partir de amanhã, quando os alunos começaram a definir oficialmente as instituições para as quais pretendem ir.

domingo, 11 de novembro de 2007

Comida ou ética?

Muitos, ao interpretarem Marx, entenderam que o material se sobrepunha ao ideal: cultura, crença e valores seriam resultados que derivariam da infra-estrurura da sociedade, ou seja, das condições materiais. Vários outros marxistas dirão que isso é equívoco, pois não está muito de acordo com a dialética. Seja lá qual for a interpretação correta, a relação unidirecional do material ao ideal ficou conhecida. Giannetti faz uma crítica meio óbvia e que parece razoável:

[...] vale notar, a falácia grotesca da fórmula brechtiana, ingenuamente materialista, "primeiro a comida, depois a ética". A sobrevivência, é verdade, é condição para tudo o mais. Mas, sem ética, a própria sobrevivência fica comprometida. Sem ela, não há ordem social, paz ou "comida" - há desagregação, guerra e fome. É a economia que se ergue sobre a infra-estrutura ética. (Giannetti, 2007, p. 101).


Giannetti, E. Vícios privados, beneficios públicos? A ética na riqueza das nações. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Economia Institucional: leis ou costumes?

Embora hoje em dia todos saibam que instituições importam, as escolas institucionalistas são ainda pouco conhecidas. A fama de Douglass North (Nobel em 1993 com Robert Fogel) não corresponde ao conhecimento médio que se tem acerca do trabalho dele. Além da linha de North, existem ainda outras escolas institucionais. A seguir apresento as duas principais correntes existentes hoje.

Sob o rótulo de "Nova Economia Institucional" (NEI), existem duas linhas principais. Ambas tiveram grande influência dos escritos de Coase e sua abordagem dos custos de transação. Ambas também trabalham com o conceito de racionalidade limitada proposto por Simon, embora acreditem que o pressuposto da racionalidade substantiva (microeconomia) seja muito útil para explicar diversos fenômenos. Por fim, ambas são relativamente próximas à teoria neoclássica. A escola liderada por North tem suas origens nas pesquisas do referido autor em história econômica e desenvolvimento. A partir delas, North chegou a conclusão que a mudança institucional era um dos determinantes fundamentais do desempenho econômico e que era necessário relaxar alguns pressupostos para explicar essas mudanças. Podemos traçar a genealogia dessa escola e relacioná-la aos escritos de Commons, o qual dava grande importância ao arcabouço legal que estava na base do sistema econômico. A outra escola da NEI é liderada por Oliver Williamson. A abordagem de Williamson é muito usada em organização industrial, concorrência e outro assuntos correlatos e, por isso, tem sido bastante aplicada.

Existe porém uma corrente institucionalista de origem mais austríaca e vebleniana. Para esses, as regras formais (leis, constituições, etc.) tão valorizadas pela NEI não tem tamanha importância. As regras informais (costumes, por exemplo) tem papel fundamental para explicar o desempenho econômico. Entre representantes dessa corrente, podemos destacar Richard Nelson, Sidney Winter, Robert Sudgen e Geoffrey Hodgson. Mesmo tendo diferenças, todos concordam que as regras evoluem (de forma mais ou menos análoga à seleção natural). Sudgen, por exemplo, fala em "ordem espontânea", termo cunhado por Hayek - economista que também podemos incluir na genealogia dessa corrente.

Existem outros economistas que consideram o papel institucional como Buchanan por exemplo. Acredito porém que não seria adequado classificá-lo. Certamente, muito da Economia Institucional, principalmente da NEI, já foi incorporado ao mainstream, embora ainda de forma branda. Poucos discordam hoje da relevância das instituições.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Produto marginal ou valor-trabalho?

No capítulo intitulado "Class, Gender and Other Groups" do famoso livro "Inequality Reexamined", Amartya Sen (1992) discorre um pouco sobre um velho debate na história do pensamento econômico: quem afinal foi responsável pela produção? E quem merece receber a remuneração advinda dessa produção? Segundo Sen:

Production is an interdependent process involving a joint use of many resources, and there is in general no clear way of deciding which resource has produced what. The concept of 'marginal product' of a resource is not really concerned with who has 'actually produced' what, but with guiding the allocation of resources by examining what would happen if one more unit of a resource were to be used (given all the other resources). To read in that counterfactual marginal story (what would happen if one more unit were applied, given everything else) an identification of who has 'in fact' produced what in the total output is to take the marginal calculus entirely beyond its purpose and depth.


Mas se os marxistas pensam que escaparam, continua Sen:

This problem of identification (who has produced what) applies to Marx's theory of exploitation as well - perhaps even more strongly, since the non-labour resources are treated in a very limited way. (p. 121)

Reações?

domingo, 4 de novembro de 2007

Os estranhos hábitos de alguns paulistanos

Não tem nada a ver com economia o que vou dizer. Talvez tenha um pouco a ver com religião. Apenas vou contar sobre um estranho episódio que ocorreu na sexta-feira, dia de Finados.

Estávamos eu e o Felipe Garcia, ex-colega da UFRGS e hoje no mestrado da FGV-SP em frente a lanchonete Bob's. Após consumirmos o famoso milk shake de ovomaltine e falarmos da beleza das mulheres gaúchas, deparamo-nos com uma multidão, que perfazia cerca de uma centena de pessoas. Elas estavam estranhamente fantasiadas: todas pareciam estar mortas, muitas delas com sangue falso em várias partes do corpo e vestidas com roupas pretas, algumas carregando foices, etc. Ao se aproximarem do Bob's, alguns deles diziam em coro em tom grave: "O-vo-maltine! O-vo-maltine!".

Bizarrices que ocorrem na grande metrópole brasileira, onde a economia é mais pujante. Mais um bom motivo para entendermos que nem sempre a opulência é melhor. Em Porto Alegre não sou obrigado a ver esse tipo de coisa e tenho melhor qualidade de vida, hehe.

sábado, 3 de novembro de 2007

Mill e psicologia individual

Por uma infelicidade do destino, fui educado acerca do trabalho do economista e filósofo inglês John Stuart Mill através do péssimo livro de história do pensamento econômico de E. K. Hunt. Isso denegriu um pouco a imagem de Mill que carreguei por algum tempo, mesmo sabendo que a obra de Hunt deixa bastante a desejar.

Stuart Mill tinha como objetivo principal fazer um síntese entre a economia política clássica de Ricardo e o utilitarismo de Jeremy Bentham, a principal corrente ética da época. Eduardo Giannetti, em seu livro "Vícios Privados, benefícios públicos?" * mostra a posição de Mill sobre a psicologia humana:

Referindo se a Bentham (mas o mesmo valeria também para Ricardo), Mill afirmou: "O homem, aquele ser mais complexo, é muito simples aos seus olhos". Simplificações drásticas da conduta humana, como o hedonismo psicológico de Bentham ou o "homem econômico" ricardiano, podiam ter alguma validade (limitada) enquanto hipóteses comportamentais em teorias sobre a realidade como ela é. Mas não mais que isso. O que de fato preocupava Mill era a universalização sub-reptícia e indevida dessas simplificações. Pois o efeito dessa extensão imprópria era empobrecer a reflexão ética e restringir seriamente qualquer horizonte mais amplo e generoso sobre o futuro da humanidade - sobre a realidade como ela deve ser. (p. 42)

De fato, também me preocupa a universalização indevida dessas simplificações - que são úteis para fazer modelos, por exemplo. Mas essas simplificações tem apenas alguma validade. Economistas parecem simplesmente aceitar que as pessoas são auto-interessadas e que nunca há espaço para considerações éticas. Um século e meio depois, algumas coisas parece que não mudam.

Pelo menos, Mill deixou seus escritos sobre filosofia moral como o "On Liberty". Ricardo faz um ótimo resumo sobre o método em Mill aqui.


*Giannetti, E. Vícios privados, benefícios públicos: A ética na riqueza das nações. São Paulo: Companhia de Letras, 2007.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Mais um seminário em história econômica

Eustáquio Reis, do IPEA, foi o convidado desta quarta para o seminário do grupo de estudos em história econômica aqui da FEA-USP. Eustáquio tem pesquisado algumas novas fontes de dados que ele tem acesso no IPEA. Alguns dos dados, como ele mesmo admitiu, não são muito confiáveis.

Um de seus papers tentou estimar a distribuição de renda no Brasil em certos anos do século XIX. Tal estudo faz parte de um projeto maior de estimação da desigualdade no mundo conduzido pelo Prof. Bértola do Uruguai. No entanto, os resultados apresentaram índices de Gini muito baixos: similares aos atuais índices escandinavos, que são os países mais igualitários. O resultado gerou grande suspeita por parte dos presentes. Mas o autor concordou plenamente que a precariedade dos dados era significativa.

O outro de seus papers mostrou um resultado mais interessante mas igualmente surpreendente. Interessante pois se tratam de dados mais confiáveis dos votantes no Brasil circa 1870. O surpreendente foi a evidente superioridade das províncias nordestinas em proporção de votantes na população. Além disso, contrariando Engerman e Sokoloff (1997, 2002), o paper afirma que o Brasil tinha considerável proporção de votantes comparativamente a outros países. No entanto, o coronelismo pode explicar essa alta proporção: uma máquina eleitoral que explorava supostos votantes analfabetos. Embora mais confiáveis, seus resultados surpreendentes geraram alguma turbulência.

De qualquer forma, é bom saber que temos mais dados a serem averiguados. Talvez se continuarmos a analisá-los de forma cada vez mais criteriosa, possamos retirar informações importantes deles.