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terça-feira, 27 de março de 2007

Equação de Slutsky em uma linha

Não é preciso escrever muito pra publicar na American Economic Review. Philip J. Cook que o diga. Em 1972, ele escreveu um paper, cuja referência está abaixo:

Cook, Philip J. A "One Line" Proof of the Slutsky Equation. The American Economic Review, Vol. 62, No.1/2 (1972), p. 139.

Infelizmente não tenho o link. Se ficarem curiosos, procurem no JSTOR (se estiverem nas suas faculdades) ou na biblioteca mesmo. Caso façam isso, comparem a prova do Cook com a do Samuelson (Foundations of Economic Analysis), o livro texto da geração de nossos pais.

É, é uma página mesmo, a 139. Tô com ela na minha frente. Nosso professor de micro (o Danilo) dá um texto por semana pra nós pra que o Mas-Collel não tome conta de toda a nossa mente.

Pra quem não sabe: Equação de Slutsky é fundamental na teoria microeconômica. Ela separa os efeitos causados pela reação do consumidor a uma variação no preço de um bem (ex: limões) em duas partes: um efeito devido à substituição de um bem por outro(s) causado pela mudança nos preços relativos (ex: antes o preço da laranja era duas vezes o preço do limão. Agora é três. Portanto, comprarei mais limões e menos laranjas) e outro causado porque você agora pode comprar mais ou menos bens: sua renda real mudou (ex: antes eu comprava oito limões com minha renda, agora compro dez). Pra isso, temos uma equação que soma os dois efeitos para chegar a variação total da demanda em relação a variação de preços.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Complexidade: o fim da teoria neoclássica?

O título é pra ser lido com ceticismo. Também sou cético em relação a isso, mas foi mais ou menos isso o que afirmou o prof. Dr. Eleutério Prado em seminário do Complex, o grupo de pesquisa que estuda complexidade na USP.

Com base num texto escrito por ele analisando complexidade em Hayek e Marx, Prado disse haver problemas para se alcançar alguns equilíbrios matematicamente, o que significaria uma limitação à teoria neoclássica. Além disso, Prado falou de limitações da lógica aristotélica, citando o teorema de Godel. que, segundo ele, expõe contradições mesmo usando o arcabouço lógico formal.

Mas afinal, o que é complexidade? É uma visão de ciência diferente do reducionismo científico, paradigma atual. O fenômeno deve ser visto como um todo complexo, e não apenas as partes: as interações devem ser consideradas. Tem muito a ver com a biologia e as idéias evolucionistas. Na economia, visa superar os modelos físicos e mecânicos baseados no equilíbrio.

O que Hayek teria a ver com isso? Marx é óbvio. Mas e Hayek? Tire suas conclusões aqui. Eu não sei...

domingo, 25 de março de 2007

Homossexualismo nas igrejas

Enquanto a última exortação do Papa da Igreja Católica Romana reafirmou o que sempre se pregou acerca do homossexualismo, pelo outro lado, a Igreja da Suécia (Luterana como a minha) declarou que vai celebrar uniões homossexuais. Ainda nesse sentido, a Igreja Episcopal dos EUA (ECUSA) está sofrendo pressão da Comunhão Anglicana, a qual exigiu um posicionamento da ECUSA até setembro pelo fato de um bispo homossexual ter sido ordenado recentemente.

O assunto é espinhoso para as igrejas. O homossexualismo é condenado em versículos de Levítico, contrariando a lei mosaica. Reforçando isso, o apóstolo Paulo em diversas epístolas afirma o caráter pecaminoso do comportamento homossexual. Os católicos romanos, com sua doutrina aristotélico-tomista, na qual o sexo só tem sentido de ser caso objetive a reprodução, não admitem o homossexualismo há bastante tempo. No entanto, o espraiamento de uma teologia liberal em alguns segmentos protestantes e a secularização cada vez maior nos países desenvolvidos têm influenciado o posicionamento das igrejas em relação ao assunto.

A posição tomada pela Igreja da Suécia, até há menos de uma década uma igreja estatal, é símbolo da transformação que ocorre. Ao mesmo tempo, católicos, ortodoxos, evangelicais de igrejas protestantes históricas e evangélicos pentecostais têm se manifestado contrários ao homossexualismo. Católicos romanos não aceitam devido ao sistema no qual se apóia a teologia católica. Evangelicais também consideram o homossexualismo como pecado, ressaltando que Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. Pentecostais e demais fundamentalistas não podem nem discutir o assunto por estar escrito na Bíblia.

A igreja luterana no Brasil, divida entre liberais e evangelicais, também apresenta defensores dos dois lados. Anglicanos no Brasil e no mundo também estão divididos. Resta-nos apenas orar para que Deus ajude-nos a trilhar o caminho certo.

sábado, 24 de março de 2007

Hidrelétricas

Como ocorre em todas as sextas, tivemos mais um seminário acadêmico. Desta vez, veio um professor do IBMEC-SP. Seu trabalho, retirado de sua tese de doutorado na University of Illinois at Urbana-Champaign, é sobre o setor elétrico brasileiro na época do "apagão". Um trabalho muito interessante: pessoal gostou do negócio. É uma aplicação prática de externalidades positivas em hidrelétricas ao longo de um rio... Quem se interessou, clique aqui.

A idéia básica é a de que uma hidrelétrica instalada em um rio regulariza o fluxo de água para hidrelétricas localizadas a jusante, ou seja, uma externalidade positiva. Como isso influi na decisão de entrada nas empresas? Além disso, tenta-se estimar o quanto funcionou o mercado de contratos na época, dadas as especificidades da legislação brasileira quanto a concessões para a construção de hidrelétricas. Em princípio, pode até não parecer empolgante, mas o trabalho é bom.

segunda-feira, 19 de março de 2007

Sacramentum Caritatis

O Jornal O Estado de São Paulo publicou uma matéria no último domingo acerca da nova exortação assinada pelo Papa chamada de Sacramentum Caritatis e sobre o silêncio imposto a mais um teólogo da libertação, o jesuíta salvadorenho Jon Sobrino.

Entre algumas proposições ali expostas encontram-se a volta do latim nas missas e a condenação do segundo casamento. Além disso, a exortação trata como inegociável o aborto, a eutanásia, o divórcio, as uniões homossexuais e o ensino da religião católica. Em suma, a exortação é uma grande crítica a modernidade.

E obviamente, Bento XVI continua afirmando o fim da teologia da libertação, que trata a classe pobre como messiânica, esquecendo que a graça de Deus é pra todos.

O papado de Ratzinger é uma espécie de continuação do papado de João Paulo II em termos doutrinários, embora suas personalidades sejam completamente diferentes. Enquanto Bento XVI é conhecido por ser um brilhante teólogo, o polonês era considerado um místico, além de ter um grande carisma.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Mais um seminário em CGE

Sexta-feira: dia de seminário. Hoje foi a vez de um parente distante daqueles famosos irmãos de Boer (ex-jogadores da seleção holandesa) apresentar dois papers sobre modelos de equilíbrio geral computável aplicado para o caso da Palestina. Desde a nova intifada e com os seus conflitos com Israel, a Palestina tem apresentado queda brutal em muitos indicadores econômicos, o que nós não estamos acostumados a ver. Sempre falamos de crescimento ou estagnação (geralmente significando crescimento baixo, como no caso do Brasil). O modelo é complicadíssimo, mas aí vão os papers:

http://www.econ.fea.usp.br/seminarios/2007_1/16_03_2007_Boer_Palestina.pdf
http://www.econ.fea.usp.br/seminarios/2007_1/16_03_2007_Boer_intifada.pdf

Para os que nada entendem de equilíbrio geral computável (CGE), não leia, ou leia a introdução e as conclusões.

Quanto ao parentesco do autor com os irmãos de Boer, o professor de Boer afirmou que foi um membro do lado negro da sua família o culpado pela desclassificação da Holanda na última Eurocopa, hehe.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Palestra sobre CGE

Hoje tivemos uma palestra sobre microsimulação e equilíbrio geral computável com uma especialista do assunto, a francesa Anne-Sophie Robilliard, do Institut de Recherche pour le Développement (IRD) em Paris. O seminário foi promovido pelo NEREUS, Núcleo de Economia Regional e Urbana da USP.

Para uma primeira apresentação do potencial de utilização da microsimulação, foi excelente e estimulante. Essas técnicas podem ser usadas para muitas áreas, incluindo desenvolvimento, políticas públicas, pobreza, etc. Prof. Eduardo Haddad, que organizou a palestra, já adiantou aos interessados que oferecerá a disciplina de Modelos de Equilíbrio Geral Computável no próximo semestre.

Bem, vou estudar o Mas-Collel. A coisa tá começando a se avolumar.

Para o amigo Ph: o Haddad e o Naércio são caras que trabalham com política pública. Haddad mais na área de regional, equilíbrio geral aplicado, etc. O Naércio trabalha com microeconometria. Os dois são sumidades nos respectivos assuntos.

domingo, 11 de março de 2007

Para o André e outros que vão prestar ANPEC

Atendendo a pedidos, vamos explicar por aqui como funciona o mestrado em Economia aqui na USP, explicando as principais coisas para os que pretendem prestar ANPEC.

A USP, até pelo menos esse ano, tem oferecido duas modalidades de mestrado (mutuamente exclusivas quando você escolhe as opções na inscrição da ANPEC): Teoria Econômica e Economia das Instituições e do Desenvolvimento. Até o ano passado, essas duas modalidades eram bastante diferentes. Enquanto os cursos de Micro, Macro e Econometria da TE eram os cursos tradicionais (mainstream), o enfoque em EID oferecia Micro institucional, uma Econometria mais simples e uma Macro também um pouco diferente. Isso mudou radicalmente esse ano: Micro e Macro são as mesmas para as duas modalidades, e Econometria só muda o professor, pois a ementa é a mesma. Ou seja, os cursos básicos convergiram para o mainstream (para a felicidade de uns e indignação de outros).

Isso tudo deve-se ao fato de que muitos alunos que entravam em TE estavam fazendo dissertação na área institucional, ocorrendo o oposto em EID. Ou seja, parecia não haver sentido em separar esses cursos. Os boatos, e eu ressalto que são apenas boatos, são de que a USP vai unificar seu mestrado novamente. Hoje, a EID difere da TE apenas pelo fato de que há mais dois cursos obrigatórios: Economia Institucional e Teorias do Desenvolvimento Econômico, disciplinas que são também oferecidas para a TE como eletivas. Ou seja, EID está contido em TE.

Portanto, aqueles que vão tentar USP e estavam pensando na opção institucional, continue estudando economia brasileira, mas não deixe de estudar as outras matérias pedidas no exame. Lembre que para passar na USP - TE, é necessário que você entre os 50, talvez 60 primeiros. Para EID, como conta a prova dissertativa de Eco Brasileira, é mais difícil dizer. Mas não muda muito, uma vez que, neste ano, temos 11 alunos de TE (10 com bolsa) e 5 alunos de EID (4 com bolsa), embora o manual da ANPEC fale em 15 vagas para TE e 10 para EID. Poucos são os alunos que não recebem bolsa, e há uma chance de se conseguir bolsa depois de uns meses. Em suma, para entrar na USP com bolsa, uma média de 7,5 nas provas garante na minha opinião. Mas isso varia de acordo com a dificuldade das provas.

Para saber de professores, clique aqui. O André citado no título queria saber sobre quem trabalha com política e economia. Existem pessoas que fazem isso, mas é bom dar uma olhada se você acha especificamente o enfoque que quer. Para trabalhar com isso, você pode ser orientado tanto por uma marxista como a Leda Paulani como o Dudu, que trabalha com a moderna economia politica.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Primeiro seminário acadêmico

Hoje tivemos nosso primeiro seminário acadêmico, após um churrasco que fizemos aproveitando que a aula de Macroeconomia acabou mais cedo. Embora alguns colegas tenham comido e bebido demasiadamente para assistir a um seminário, o professor da EPGE/FGV-RJ, economista do Unibanco e ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, o Dr. Marcos Lisboa, nos proporcionou uma excelente palestra.

O seminário tratava da contradição existente no trato de decisões individuais e decisões públicas. Por exemplo, enquanto alguns economistas acreditavam que a educação era irrelevante para o aumento do nível de renda, no plano privado, eles educavam seus filhos. A partir disso, Lisboa desenvolveu a idéia de que as evidências empíricas foram e são ainda pouco relevantes no debate acadêmico brasileiro, o que teria influenciado as escolhas feitas no Brasil em relação a políticas públicas, as quais ignoraram a educação. Exemplo interessante foi a da África do Sul, onde os médicos teimam em dizer que a AIDS não existe e que é uma invenção do imperialismo norte-americano. A discussão na área médica da África do Sul é um diálogo de surdos, assim como fazem os heterodoxos braslileiros, os quais ignoram os dados, o empírico, não os examinando criticamente. Ao contrário, insistem dogmaticamente nos pontos que defendem: eles não testam, refutando preconceituosamente teses diferentes e não utilizando um método rigoroso. Por exemplo, quando falam de controle de capitais, os heterodoxos focam em casos particulares e nem ao menos definem o conceito de "controle de capitais".

Ele deu inúmeros exemplos e excelente fundamentação para sua tese, fazendo uma crítica bastante forte à heterodoxia, a qual só existe para criticar, ao invés de ter, no sentido lakatosiano, um programa de pesquisa. Por trás de sua visão, está uma visão chamada de hard science, que não dá grande importância ao passado. Assim, criticou a heterodoxia devido à sua visão soft science, a qual se trata apenas de um diálogo com o passado, pouco produtivo para a criação de um programa de pesquisa. O novo é desfavorecido, contrariando todo o projeto iluminista, que na visão de Lisboa, foi o responsável pelo aumento explosivo da riqueza. A economia neoclássica segue esse caminho, enquanto a heterodoxia existe apenas em função da ortodoxia. Essas foram as opiniões de Marcos Lisboa.

O primeiro seminário foi muito estimulante, com a participação de alguns professores e com boa presença de público. Após, tivemos um lanchinho no salão e o Lisboa continuou debatendo com os alunos. Foi bastante interessante e instigante. Continuando assim, teremos um excelente ano por aqui.

P.S.: Para ter familiaridade com os conceitos de hard e soft science, ver o clássico artigo de Pérsio Arida (1983), "A História do Pensamento Econômico como Teoria e Retórica, o qual foi publicado por exemplo em Rego, J. M. (1996). Retórica na Economia. Ed. 34. e Rego, J.M. (2004). A História do Pensamento como Teoria e Retórica, Ed. 34.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Alguns professores da FEA

Ontem fomos ao famoso "Rei das Batidas", um bar perto da Cidade Universitária, o campus da USP na capital. Um colega nosso, Leandro, ganhara prêmio por sua excelente monografia, que versa sobre insumo-produto, orientado pelo prof. Joaquim Guilhoto (insumo-produto é com esse cara...).

Enquanto celebrávamos lá, vimos um professor da FEA por lá, o Joe Yoshino. Este professor fora orientando de nada mais, nada menos do que Robert E. Lucas Jr., segundo contam. Com Ph.D. pela University of Chicago, o professor Joe se especializou em derivativos, mercado de capitais, etc. Afirmou ele que Lucas e Scheinkman são amigos dele e que, portanto, cartas de recomendação dele são muito boas. Foi bastante curioso encontrar um professor desse gabarito no bar. Infelizmente, ele não se envolve muito com a Pós.

O Joe elogiou muito um dos professores de Econometria, que ainda não está oficialmente no departamento. Recém-chegado de Chicago, Ricardo Avelino, que fez mestrado na FEA, foi orientando do Heckman e anda assustando meus colegas da área de Teoria Econômica com suas aulas de Econometria.

Nossos professores de Micro I serão Danilo Igliori e Fernando Botelho. O primeiro você pode encontrá-lo no Department of Land Economy da University of Cambridge e trabalha com Economia Espacial e Regional. O segundo, segundo a lenda, foi o primeiro da ANPEC e um dos destaques em Princeton, onde fez Ph. D.

Macro I será ministrado pelo Prof. Carlos Eduardo, vulgo Dudu. Dizem que o curso dele é excelente. Econometria para nós da EID, é com o Heron do Carmo, um cara que está na FEA há tempos. Referiu-se ao Pérsio como se ele fosse um velho amigo (o Pérsio Arida), afinal, fora seu colega de mestrado.

Há muitos outros professores com ótimas linhas de pesquisa por aí. Em breve, falo mais sobre eles. Espero que isso possa ajudar pessoas a se decidirem quanto a ANPEC.

quarta-feira, 7 de março de 2007

Palestra com Delfim...

Com o início das aulas na FEA-USP, tivemos o início de uma série de palestras (as quais serão quinzenais) organizadas pelo ex-ministro Delfim Netto, praticamente um patrimônio da FEA. A palestra inaugural contou com a participação de ilustres heterodoxos como João Sayad e Luiz G. M. Belluzzo.

Embora os dois recém mencionados tiveram boas participações, a personalidade centralizadora e o sarcástico humor de Delfim dominaram a discussão. Creio que a melhor de suas piadas tenha sido a seguinte, ao comentar o caso da China:

"Quando a bolsa incomoda, um governo que tem um enorme número de estatais dá um jeito. Falo isso por experiência própria (risos da platéia). Quando a bolsa me apurrinhava, eu mandava a Petrobrás comprar milhares de ações..."

O velho Delfim continua bem vivo.