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terça-feira, 26 de dezembro de 2006

errata

O link do post anterior não vai funcionar...

Desculpas! É época de Natal, vocês vão me perdoar. Para muitas igrejas de rito ortodoxo, o Natal é comemorado no dia 6 de janeiro. Ainda estamos em espírito natalino.

domingo, 24 de dezembro de 2006

Conjecturas natalinas

Natal é tempo de balbúrdia, compras, festas e comilanças. Uma festa para o comércio. A quantidade de carros estacionados no Shopping Iguatemi aqui de Porto Alegre ontem era enorme. Isso é normal em festas de fim de ano, como mostra o site do IPEAData nos dados sobre vendas nominais do varejo: http://www.ipeadata.gov.br/ipeaweb.dll/NSerie?SessionID=536281100&SERID=38325_1&NoCache=347151250&ATEMP=F

É possível perceber que o mês de dezembro representa um salto nas vendas do varejo. Por exemplo, enquanto o índice de varejo varia em torno de 120 (base 100 em 2003) ao longo do ano de 2005, dezembro do mesmo ano apresenta um índice de 179,50. Em janeiro de 2006, volta-se ao patamar de 120. De 2000 a 2003, período contemplado pela série, o comportamento é muito parecido: um salto em dezembro devido às compras de Natal. Bem, isso é óbvio. Mas dados sempre são mais ilustrativos. Precisamos verificar empiricamente tudo, inclusive o óbvio.

* * *

O natal mantém-se, mas perde seu significado religioso de forma paulatina e continuada. Embora Jesus não tenha realmente nascido em dezembro (estudos apontam que Jesus teria nascido por volta do mês de Abril), o Natal é celebrado em dezembro por conta da festa do solstício que já existia em algumas culturas. De qualquer forma, o Natal se perde com o demasiado estímulo às compras, como se esse fosse o fim último da celebração natalina. Tanto que a figura do Papai Noel tornou-se mais importante, uma vez que ele é associado aos presentes e às campanhas publicitárias da Coca-Cola. A figura de Jesus, com sua ética do amor e sua associação à religião, não se presta à publicidade ou ao comércio.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Sobre Análise Matemática e Ciência Econômica

Minhas aulas no mestrado da USP começam no dia 3 de janeiro, o que, convenhamos, é uma data excelente pra estar na praia, deitado numa rede e tomando água de coco. Mas estarei lá estudando matemática e estatística: a manhã inteira, todos os dias úteis.

Contei para alguns da ementa do curso de matemática. Basicamente, aprenderemos análise real, tanto que o livro básico indicado é homônimo e publicado pelo IMPA. A análise consiste (acho eu) em provar teoremas e coisas do tipo. Não se trata da aplicação. Ao falar sobre isso para o meu professor de economia matemática, o Dr. Jorge Araújo, ele afirmou que talvez esse curso não fosse necessário: o custo de oportunidade é alto, uma vez que aprender bem a aplicação (ex: otimização dinâmica, hamiltonianos, enfim, coisas que nem sei o que são) seria mais vantajoso. Prof. Giácomo e Prof. Ronald apareceram de repente e os três passaram a discutir, enquanto eu avidamente ouvia a opinião deles.

Prof. Giácomo disse que acredita ser positivo ter conhecimento em análise de qualquer forma. No entanto, o prof. Ronald corroborou a opinião do Prof. Jorge. O exemplo que ele deu foi de dois doutorandos em física de Stanford que uma vez ele encontrara com alguns amigos seus economistas. Quando os últimos relataram que estavam estudando análise, ao mesmo tempo em que elogiavam os físicos pelo seu conhecimento matemático, os físicos responderam que não estudavam análise.

É interessante observar como a economia matemática acabou ganhando status dentro da ciência econômica. Segundo o Jorge, a dificuldade de verificação empírica das teorias econômicas é responsável por essa divinização da economia matemática. Na física, o pessoal está mais preocupado com a aplicação prática, não sendo necessário cursos sofisticados de análise, por exemplo.

Rangel: inflação e Kondratiev

Enquanto escrevia minha monografia, foi possível perceber como o contexto mudou de cinqüenta anos para cá. Naquela época, o estruturalismo era dominante nos meios intelectuais brasileiros. Economistas como Ignácio Rangel eram muito conhecidos e citados. Recentemente, ganhei do Prof. Pedro Fonseca as obras completas desse cara, sem que eu saiba quase nada sobre o que ele escreveu. (Isso talvez explique o presente...).

Rangel era um heterodoxo entre os heterodoxos. Enquanto o debate estava entre estruturalismo e monetarismo, Rangel discordou dos dois lados, propondo sua própria teoria inflacionária. Embora aceitasse causas estruturais (endógenas) da inflação, contrariando a teoria quantitativa da moeda, Rangel rejeitava a inelasticidade da oferta agrícola como causa de inflação de demanda. Para o autor, a inflação de custos ocorria porque as empresas, ao se organizarem como oligopólios ou oligopsônios, tentavam defender seus lucros com a elevação de preços. A economia brasileira operava, segundo Rangel, com capacidade ociosa e insuficiência de demanda. Nesse contexto, a inflação, causando alta taxa de mobilização, evitava crises econômicas maiores.

Outra tese que Rangel defendia era a dos ciclos de Kondratiev, a qual eu sempre considerei como um cúmulo de "acientificidade", embora não soubesse muito a respeito. Penso eu, como tantas pessoas acreditam(avam) nessa tese no qual a cada 50 ou 60 anos o capitalismo estaria sujeito a crises? Isso até pode ter acontecido umas três vezes, mas como inferir disso uma lei? O necessitarismo histórico implícito na idéia de Kondratiev, considerado um gênio por Rangel, me parece tão demasiado quanto a tese marxista de que fatalmente chegaremos ao comunismo.
Ao sair da graduação, poucas vezes eu ouvira falar em inverter a TQM. Mas isso até é aceitável, dado que a teoria da inércia inflacionária também é chamada de neoestruturalista justamente por aceitar causas não-monetárias. No entanto, tanta gente que acreditava em Kondratiev... ou na aceleração do tempo e do espaço proposta por Arrighi... Não conheço muito sobre os temas, mas para mim são estranhos.

O que sei é que o ensino de economia mudou muito, o debate econômico mudou. A heterodoxia continua, mas muito menos radical que outrora. Alguns autores como Rangel parecem rumar para o esquecimento, embora ele tenha diversas contribuições além das citadas acima. Isso é bom? Não sei, não conheço Rangel direito. Mas sei que tenho que estudar mainstream: com isso, não estou sendo irônico, nem intransigente. É só uma constatação mais realista que ideológica de um novo mestrando em economia.

domingo, 17 de dezembro de 2006

Mercados financeiros são eficientes?

Muitos modelos econômicos trabalham com a hipótese de mercados eficientes. Até a década de 1970, o pessoal que estuda finanças acreditava platonicamente na hipótese da eficiência dos mercados financeiros.

Mercado eficiente significa que o sistema de preços reflete todas as informações disponíveis e relevantes. No entanto, como mostraram Grossman e Stiglitz (1980), os preços dos ativos não podem refletir perfeitamente as informações. A experiência mostra que os investidores buscam obter informações diretas e não apenas observando a movimentação dos preços, arcando com o custo de obter essa informação. Tal comportamento só é compreensível se há vantagens em obter essa informação. Ou seja, a vantagem informacional gera algum lucro e, portanto, os preços dos ativos não transmitem tudo o que se precisa.

Essa tese é antiga, mas pouco se fala dela na graduação ao menos. Eu, pessoalmente, nunca ouvira falar.

Confira mais em:
Grossmann, S. e Stiglitz, J. (1980). "On the impossibility of informationally efficient markets". American Economic Review 70(3): 339-408 June 1980.
Aldrighi, D. M. (2006). "Uma avaliação das contribuições de Stiglitz á teoria dos mercados financeiros". Revista de Economia Política, vol. 26, n 1 (101), pp. 137-157. janeiro-março 2006.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

90% de aumento para parlamentares

Ontem, as duas mesas diretoras do Congresso aprovaram um reajuste de "apenas" 90,7% nos seus salários. Deputados e senadores terão seus salários equiparados com os dos ministros do STF, passando de R$ 12.847,20 para R$ 24.500,00. Isso significa também um aumento de 1,6 bilhão de reais nos gastos públicos, quando justamente o que precisamos é de déficits fiscais menores que permitam a baixa dos juros.

Um aumento desse tipo é completamente doentio do ponto de vista moral: parlamentares decidindo sobre um aumento absurdo de seus vencimentos justamente depois das eleições, enquanto a renda dos aposentados, devido ao problema fiscal da previdência, não acompanham as elevações do salário mínimo. Existe aposentado que deveria ganhar 8 salários minímos que recebe apenas cinco. Isso se compreende devido ao problema fiscal, dizem alguns. Mas como entender então um reajuste de 90% de corruptos deputados e senadores, muitos dos quais estiveram recentemente envolvidos em escândalos como o mensalão? Ademais, parlamentares recebem diversos "auxílios" adicionais, de forma que seus vencimentos brutos pouco diferem dos líquidos devido a esses benefícios que recebem também às custas do Estado para trabalharem três dias por semana.

O serviço que os parlamentares prestam ao país é vergonhoso. Devemos protestar de alguma forma contra essa barbaridade. Quando lembramos então que o Estado é financiado principalmente por impostos regressivos, os quais oneram principalmente as camadas mais pobres, este assalto ao Estado torna-se uma forma de corrupção legalizada mais grave ainda.

Aí vão os nomes dos líderes parlamentares que votaram a favor. A decisão não foi para a plenária, foi decidida pelas mesas diretoras. Ao menos, o PPS entrou com ação de inconstitucionalidade no STF contra o reajuste: talvez não por motivos nobres, mas já é válido.

Votaram a favor:
Aldo Rebelo (PC do B-SP); Renan Calheiros (PMDB-AL); Ciro Nogueira (PP-PI); Jorge Alberto (PMDB-SE); Luciano Castro (PL-RR); José Múcio (PTB-PE); Wilson Santiago (PMDB-PB); Miro Teixeira (PDT-RJ); Sandra Rosado (PSB-RN); Coubert Martins (PPS-BA); Bismarck Maia (PSDB-CE); Rodrigo Maia (PFL-RJ); José Carlos Aleluia (PFL-BA); Sandro Mabel (PL-GO)Givaldo Carimbão (PSB-AL); Arlindo Chinaglia (PT-SP); Inácio Arruda (PC do B-CE); Carlos Willian (PTC-MG); Mário Heringer (PDT-MG); Inocêncio Oliveira (PL-PE); Demóstenes Torres (PFL-GO); Efraim Moraes (PFL-PB); Tião Viana (PT-AC); Ney Suassuna (PMDB-PB); Benedito de Lira (PL-AL); Ideli Salvatti (PT-SC).


Votaram contra Henrique Fontana (PT-RS), Chico Alencar (PSOL-RJ) e Heloísa Helena (PSOL-AL).

Veja mais em:

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Perspectivas econômicas

Depois de enfrentar uma banca de professores na apresentação do trabalho de conclusão e ter saído vivo, resolvi assistir meu último seminário do NAPE, o Núcleo de Análise de Política Econômica da UFRGS. Confesso que foi um dos melhores que eu já vi.

  • Ponto comum entre keynesianos e ortodoxos, o que importa é a taxa de investimento em relação ao PIB. Para que tenhamos um crescimento ao redor de 5%, precisamos de 25 a 27% de investimento. O nível de investimento é determinado principalmente pela taxa de juros de longo prazo (TJLP), que está bem abaixo da Selic. E por que a taxa Selic é importante? Para a ortodoxia, ela não é tão importante no quesito investimento. Para os keynesianos, porque ela influi no consumo, o que afeta as expectativas dos investidores (Keynes, 1936).

  • Comparando os números, o governo Lula foi melhor que o Cardoso 2. No entanto, relativamente ao crescimento mundial, Lula foi pior. Enquanto Lula não teve uma crise internacional sequer, FH passou por umas cinco... Segundo o Prof. Portugal, Dona Ruth não esquentava os pés de FH durante à noite.


  • O pessoal acha que não vai ter muita reforma no mandato Lula 2.

  • Os prof. Portugal e Ferrari concordam: a política fiscal deveria ser contra-cíclica... tem sido? Aí eles divergem, mas eu não sei explicar.

  • Crescimento potencial brasileiro para o Prof. Portugal: ao redor de 2,5%. Desde os anos 80, a nossa média tem sido essa. Pra ele, política monetária não gera crescimento sustentado. O problema é estrutural, ou seja, reformas e privatizações são necessárias.

  • No Brasil, a Selic serve para a política monetária e para os títulos da dívida pública. Isso eu sabia. Nos outros países, em geral não é assim. Sabiam disso? Isso tem a ver com nosso longo período de inflação acelerada: estaríamos "pagando nosso pecados" (Portugal tava inspirado hoje...)

domingo, 10 de dezembro de 2006

Marshall, economia e religião.

Alfred Marshall (1842-1924), expoente da escola de Cambridge, teve brilhantes idéias ao longo de sua vida. Além de termos herdado dele as demandas marshallianas, tão caras a nós na microeconomia, e tantos outros conceitos econômicos (coeteris paribus e economias externas são apenas alguns deles), também afirmou ele que "os dois grandes fatores na história do mundo têm sido o religioso e o econômico". Mais ainda, Marshall reconheceu a importância do estudo histórico para uma melhor compreensão da realidade.

É verdade que, equivocados por não compreenderem bem a dialética, muitos marxistas e/ou marxianos afirmam até hoje que o fator relevante e causador de todo o resto seja o material. No entanto, outros fatores tiveram e ainda têm seu papel. Curiosamente, mesmo reconhecendo a importância desses fatores, pouco ou nenhum espaço houve na teoria econômica de Marshall para eles. Conquanto a matemática fosse apenas auxiliar e presente principalmente nos apêndices de sua obra, o sistema de Marshall não tinha como incluir história, política, ideologia, religião, instituições, etc. Nem por isso, as suas ferramentas são inúteis. A tesoura marshalliana, que reconhece o papel da oferta e da demanda na determinação de preços e quantidades, é uma ferramenta fantástica. Nem aqueles que se consideram mais keynesianos podem reclamar: é Marshall que via a possibilidade de ajuste pelas quantidades, e não só de preços como na proposição walrasiana. É com Marshall que Keynes aprendeu isso.

Nada como Marshall para iniciar esse blog. Como na frase dele citada acima, que inicia seus "Princípios de Economia" de 1890, ele chamou atenção para a economia e para a religião, meus dois maiores interesses.